Blog de Débora Fontenelle (CRÔNICAS)


 

DOM BOSCO: UM EXEMPLO DE EDUCAÇÃO PARA JOVENS


 

Dom-Bosco


Li recentemente com muita curiosidade e satisfação a biografia “Dom Bosco – Fundador da Família Salesiana” de Robert Schiélé e passei a refletir sobre a cativante trajetória desse sacerdote italiano que contribuiu para mudar, do século XIX até hoje, a história de incontáveis jovens ao redor do planeta com sua proposta inovadora na educação. Dom Bosco implementou um modelo educacional que desafiava e ainda desafia o senso comum, pois conseguia conquistar garotos vindos de um panorama bem conhecido de nós brasileiros: pobreza, exploração e delinquência. Mesmo em meio a esse cenário adverso, o dedicado religioso ajudava os jovens a transformar-se em rapazes estudiosos, profissionais qualificados e cidadãos honestos de bem. Qual era o segredo? Convido vocês agora para participarem comigo dessa descoberta...

A resposta é aparentemente simples, pois tudo o que o padre católico fazia era tratar os jovens com muito amor. Ele desenvolveu uma pedagogia que tomava como base a razão, a religião e a bondade e, nesse empreendimento, foi mais do que bem-sucedido. Ele procurou educar e profissionalizar os jovens, oferecendo-lhes ao mesmo tempo uma sólida formação moral e espiritual e essa combinação proporcionou-lhes uma mudança profunda em termos de comportamento e postura diante da vida. Os alunos de seus estabelecimentos amavam Dom Bosco porque sabiam que o sentimento era recíproco. O caminho para alcançar tanta realização, entretanto, foi bastante difícil, como pode-se imaginar. Para uma melhor compreensão do método usado por esse genial religioso e educador, venham conhecer um pouco de sua história...

João Bosco nasceu em 1815, em Piemonte, região campestre da Itália. Quando criança, ele era atlético, animado e mostrava-se à vontade em papel de liderança.  Porém, O pequeno João tinha temperamento difícil e costumava brigar com outros meninos quando surgiam problemas. Um dia ele teve uma revelação: sonhou que alguns garotos blasfemavam e João, como cristão devoto, não admitia essa prática e resolveu bater neles. Eis que surgiu Jesus e lhe disse: “Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos. Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pecado e a preciosidade da virtude.” Então, João avistou a Virgem Maria que lhe mostrou animais ferozes dos quais deveria cuidar. Depois eles se transformaram em cordeiros mansinhos e quando João perguntou à Maria sobre o significado de tudo aquilo, ela lhe respondeu: “A seu tempo, tudo compreenderás.” A partir desse sonho, que seria o primeiro de vários, João foi se interessando pela possibilidade de ser um sacerdote. E que sacerdote ele ainda viria a ser!

João Bosco, em 1841, já ordenado-, formou um pequeno oratório no vilarejo de Valdocco em Turim, denominado Oratório São Francisco de Sales, em homenagem ao santo cujo exemplo lhe inspirava. No início, os garotos residiam lá, estudavam e usufruíam de alimentação, missa diária, catequese, recreação, esporte, música, teatro e muito amor. Os garotos sentiam-se acolhidos, felizes e viam João Bosco como um pai e amigo, que os orientava com amabilidade e até participava dos seus jogos com alegria. Mais tarde, o oratório foi crescendo, o sacerdote foi criando escolas/internatos e desenvolveu o ensino médio/profissionalizante que abrangia o aprendizado de sapataria, mecânica, alfaiataria, marcenaria, tipografia, encadernação e até uma fundição de tipos e forja. Eram diversas oficinas que preparavam os rapazes para o mercado de trabalho na época. O projeto, apesar de muitas dificuldades, ganhou novos adeptos até que em 1859, Dom Bosco fundou a Congregação dos Salesianos impulsionando a obra e expandindo a criação de centros educacionais. Para o novo método, o futuro santo chamou de “Sistema Preventivo” que conquistava os jovens através de palavras e atitudes carinhosas, o uso da razão e abolia os castigos físicos – prática comum em seu tempo - para prevenir os maus atos. O respeito e a admiração por Dom Bosco eram tão profundos que os meninos sofriam ao desapontá-lo. Dom Bosco escreveu sobre o “sistema preventivo” afirmando que o objetivo do educador é proporcionar “a formação cívica, moral e científica de seus alunos.” Escreveu ainda que “o educador entre os alunos procure fazer-se amar, se quer fazer-se respeitar” e “não é suficiente amar os jovens: eles têm que saber que são amados.” Em resumo, o educador deveria ser o exemplo maior para os estudantes através do amor. Deste modo, os jovens teriam todo o prazer em aprender com o seu mestre, pois o amor seria parte integrante e fundamental do processo de aprendizagem.

João Bosco ainda descobriu o trabalho excepcional de Maria Domenica Mazzarello que, junto com uma amiga, cuidava de algumas jovens de sua região e ensinava-as os valores cristãos com amor e alegria, promovia atividades recreativas, fazia passeios, além de preparar as meninas para a vida profissional como costureiras. Após conhecê-la, Dom Bosco deu todo aval para a criação de um colégio especializado para meninas nos mesmos moldes que fazia com os garotos. A partir dessa nova experiência, o sacerdote fundou em 1872 o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, que seria o braço feminino dos Salesianos. O instituto e todo o projeto ficou sob a direção da dedicada religiosa que se tornou Superiora da Congregação. No final da vida, Dom Bosco percebeu a dimensão das palavras da Virgem Maria e compreendeu, enfim, tudo sobre sua missão. Quando ele faleceu em 31 de janeiro de 1888, os salesianos com seu trabalho iluminado já tinham se expandido pela Europa e já atuavam na América Latina. Hoje, eles estão presentes em todos os continentes. As belas histórias de São João Bosco e Santa Maria Domenica já ganharam as telas com as produções italianas “Dom Bosco” (1988) e “Main – A Casa da Felicidade” (2012) e os dois filmes fizeram com que a minha admiração por eles e, por tudo que fizeram, ganhasse uma dimensão ainda maior. Não canso de pensar que todas as conquistas alcançadas pelos dois santos só foram e ainda são possíveis porque o amor consiste como fundamento para a educação nos colégios salesianos.

Quando vejo a situação do Brasil no século XXI, em que o Atlas da Violência 2016* constatou que o nosso país em termos gerais figura em 15º no ranking, mas em números absolutos é o campeão mundial de homicídios, questiono-me sobre a educação tanto familiar como institucional recebida pelos jovens que engrossam os índices de violência como vítimas ou protagonistas. E quando me lembro que há também uma parcela cada vez maior da nossa juventude sofrendo por causas como abandono pelos pais, estupro, abuso sexual, bullying, desemprego, dependência química, enfim tantas gravidades, passo a imaginar que tudo seria diferente se todos desde o nascimento recebessem mais amor. Seria isso impossível? E aí me vem à mente o exemplo extraordinário de Dom Bosco que dedicou toda a sua vida a crianças e adolescentes e fora intensamente amado por eles... O método salesiano que unia formação católica, escolaridade, esporte, lazer e ensino profissionalizante para meninos e meninas parece-me dos mais apaixonantes de que já tive notícia.

Dom Bosco passou pela vida como um cidadão íntegro e profícuo, engajava-se com todo o entusiasmo em suas atividades e por isso serviu de modelo para os jovens, leigos, sacerdotes e educadores. Penso que se a filosofia de seu modelo educacional fosse bem aplicada nos colégios brasileiros em geral, nossa realidade seria transformada. E para melhor... Embora o conteúdo formal sempre possa ser revisto de acordo com as necessidades de nosso tempo, assim como o tipo de ensino profissionalizante implementado, o amor que é a base de todos os valores cristãos nunca deveria sair de foco. A educação não se faz apenas com instrução formal, pois o ser humano necessita ser visto de modo integral e jamais pode prescindir do amor. Assim fazia Dom Bosco. Ele, na verdade, seguia o exemplo do próprio em Cristo em querer resgatar vidas e fazê-las criaturas novas. Nestes tempos turbulentos em que vivemos, vale a pena conhecer cada vez mais a vida e a obra desse personagem real que passou para a História, nas palavras do Papa São João Paulo II, como São João Bosco, “Pai e Mestre da Juventude”. Vamos comemorar e nos inspirar também em seu exemplo!

 

 

*Obs.: O Atlas Violência 2016 foi um estudo desenvolvido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

       



Escrito por Debbie Fontaine às 22h32
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