Blog de Débora Fontenelle (CRÔNICAS)


UM DIA EM SANTA BÁRBARA

 

Santa Bárbara

 

Quando estive nos Estados Unidos em junho deste ano, fiquei ansiosa em conhecer uma cidade que até pouco tempo eu nem sonhava em visitar: Santa Bárbara. E ainda fiz planos para um passeio em tempo integral, incluindo viajar de trem, passear a pé, explorar pontos turísticos e comprar muitos souvenirs por lá. Mas, afinal, o que me motivou a ter este novo sonho de consumo?  As praias e uma área denominada “Old Mission” (Antiga Missão). Esta última faz parte das 21 missões católicas estabelecidas pelos franciscanos espanhóis no estado da Califórnia no século XVIII. Visitas a um cenário de natureza e a um ambiente histórico/espiritual pareciam dois programas diversos e complementares para que meu dia fosse sensacional.  Pelo menos é o que estava na minha programação; entretanto, o dia me reservaria muitas outras emoções...

Para começar, eu e minha amiga Lígia nos dirigimos à estação ferroviária, ou melhor, ela me dirigiu até lá. Entramos no Amtrak e partimos para o nosso destino. O trem americano era bem diferente do coreano e o chinês que costumo pegar no Rio: tinha dois andares, muitos assentos, uma área para refeição e contava com uma fiscal para checar as passagens. Durante a viagem de aproximadamente uma hora e meia, pude apreciar pela janela algumas cidades pouco comentadas como Moorpark e Carpintaria até chegarmos à Santa Bárbara, considerada a Riviera Americana. Antes de saltarmos, chamou-me a atenção a grande quantidade de trailers estacionados ao longo da orla e muita gente que estava provavelmente de férias, entre elas alguns surfistas e poucos banhistas. Descemos e o primeiro lugar escolhido para visitar foi o Stearns Wharf, um charmoso píer de madeira onde se pode desfrutar de restaurantes, lojas, um museu marítimo e uma bela vista da praia. O dia estava ensolarado e enchi-me de disposição em andar à beira-mar enfrentando um vento típico de cais.  No píer, avistei postes em estilos antigos, bandeiras de várias nacionalidades , inclusive as norte-americanas , e passei por muitos turistas como eu, que vinham a pé, de carro ou bicicleta, além de diversos pescadores e gaivotas. Aliás, tive a oportunidade de ver uma gaivota bem de perto, assim como uma ave semelhante a uma cegonha que roubaram a cena, pois pareciam po(u)sar para receber os animados cliques das câmeras por todos os lados.

Parei e admirei por alguns momentos a serenidade do cenário: as montanhas ao fundo, as casas, as faixas de areia e as palmeiras que embelezavam toda a extensão da praia. Contemplei também os praticantes de esportes aquáticos tranquilos em seus barcos a vela, caiaques e pranchas de stand-up paddle. Os raios de sol faziam um belo reflexo na água e me fizeram imaginar que para completar a obra só faltava eu dar um bom mergulho nas águas do Oceano Pacífico... Não foi dessa vez, mas só a paisagem já valeu a pena. Depois deste deleite para os olhos era hora de satisfazer a manifestação do estômago e, ainda com tempo para algumas fotos e compras, fomos para um ótimo restaurante perto do píer. Ali degustei um prato de camarões acompanhado de um copo de cerveja tão grande que devia ter uns 600 mililitros! Assim, o dia parecia quase perfeito... Comecei a pensar que Santa Bárbara, mártir da perseguição dos cristãos no século IV, nunca imaginou que seu nome seria dado à uma cidade tão bonita. Uma justa homenagem. Empolguei-me e lembrei-me também do caso de São Francisco e passei o resto do almoço contando a história dele para a Lígia. Posso dizer que o camarão gostoso, a cerveja gelada, a boa companhia e as histórias inspiradoras me fizeram devanear. Tudo ótimo, mas eu não poderia perder a visita à “Old Mission”.

Dali, saímos para pegar um trolley, que é um ônibus bonitinho, todo branco com uma faixa azul no meio, de baixa altura e com largas janelas. Pude apreciar as ruas com precisão, especialmente a State Street, bem extensa, cheia de árvores, flores, cafés, restaurantes, bancos, lojas e um mundo de variedades. Saltamos e como diz o ditado que “nem tudo são flores”, o calor estava muito forte, começamos caminhar até a Missão e depois de um tempo... nem sinal. Aí é que descobrimos tudo o que não queríamos: saltamos no lugar errado. Andamos até achar outro ponto e esperar por um ônibus na direção contrária. Para minha alegria logo chegou um, mas quando saltamos, vimos que novamente não estávamos nada perto da Old Mission. Andamos sob aquele sol escaldante e tudo o que víamos eram residências e mais chão. A sensação era de que estávamos perdidas. Pensei: “E agora?” Paramos para pedir informações, andamos mais ainda, até que a Lígia se lembrou de algo muito importante: Já passava das 16h. E eu disse que o lugar ficava aberto só até às 16:15h. Pronto! Se a gente demorasse por mais tempo eu ia perder o passeio pelo qual estava mais empolgada nos Estados Unidos! Não, seria castigo demais... Comecei a ficar chateada. Fiquei pensando na bobagem que eu fizera em não consultar mapa nenhum para chegar lá. Eu nem queria mais saber que horas eram quando finalmente avistamos a Igreja. Era linda! Bem grande, branquinha com detalhes em rosa claro em uma ampla área verde, com as tradicionais palmeiras da Califórnia, um jardim com fonte e parte da grama decorada com pinturas artísticas. Pensei: “Se eu não conseguir entrar, pelo menos não perco a foto...” Quando chegamos à bilheteria, para nossa surpresa, descobrimos que ainda estávamos no horário de entrar. Que alívio! Conseguimos! A partir daí, o passeio foi mais rápido do que previmos, mas o suficiente para eu me encantar com o vídeo, as fotografias, os objetos e as relíquias da exposição que contaram toda a história dos missionários franciscanos de Santa Bárbara. E foi um prazer imenso poder andar pelas dependências da Missão, entrar na capela com esculturas em tamanho natural de São Francisco, Santa Clara, Jesus e Maria Madalena, entre outros, passear pelo Sacred Garden (Jardim Sagrado), conhecer o cemitério e o Mausoléu dos religiosos, além da exposição propriamente dita, inclusive com obras feitas pelos indígenas. Foi mesmo emocionante entrar e sair pelos corredores que respiravam história e espiritualidade. E como não poderia faltar a ida à lojinha de lembranças, comprei material logo que entrei. Quando saí, separei mais alguns livros e aí recebemos o aviso de uma vendedora: “o horário de compras está encerrado!”. Indaguei-me: “Será que não vão mesmo aceitar que eu compre com tudo já escolhido?” Então, a senhora que trabalhava como caixa resolveu “dar um jeitinho para uma brasileira” e consegui comprar meus livros. Depois saí com a Lígia para uma sessão de fotos nos jardins do lado de fora. Uma beleza!

A tarde ia caindo e tínhamos que voltar.  Apesar dos percalços, saí bem satisfeita com a visita. Pegamos mais um trolley até a estação de trem e aí é que pude realmente admirá-la. De cor caramelo, com aberturas em forma de arco, tinha uma estrutura arquitetônica que lembrava as construções espanholas. E, como em todos os lugares da Califórnia, era bem-organizada e cercada de árvores e jardins. Agora um dado interessante: O banheiro não tinha uma fechadura tradicional, mas um teclado como o de um cofre de hotel. E só podia ser aberto através de uma senha dada na bilheteria. Nunca pensei que fosse precisar de um código secreto para entrar em um banheiro... Pelo menos ali, o toalete feminino parecia ser tratado como assunto confidencial... 

 

Pegamos o trem de volta, cansadas, mas felizes. Mais um passeio que era forte candidato a se tornar inesquecível! Apreciei mais uma vez a paisagem da janela do trem com a certeza de que, mesmo com os imprevistos e os pés doloridos, tudo valera a pena. E quando me lembro da praia, do píer, do cenário efervescente da State Street e da paisagem da Old Mission, fico com uma vontade de voltar... Quem sabe um dia. Por ora, fico na nostalgia e na certeza de que mais projetos virão...



Escrito por Debbie Fontaine às 15h35
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