Blog de Débora Fontenelle (CRÔNICAS)


UM DIA EM SANTA BÁRBARA

 

Santa Bárbara

 

Quando estive nos Estados Unidos em junho deste ano, fiquei ansiosa em conhecer uma cidade que até pouco tempo eu nem sonhava em visitar: Santa Bárbara. E ainda fiz planos para um passeio em tempo integral, incluindo viajar de trem, passear a pé, explorar pontos turísticos e comprar muitos souvenirs por lá. Mas, afinal, o que me motivou a ter este novo sonho de consumo?  As praias e uma área denominada “Old Mission” (Antiga Missão). Esta última faz parte das 21 missões católicas estabelecidas pelos franciscanos espanhóis no estado da Califórnia no século XVIII. Visitas a um cenário de natureza e a um ambiente histórico/espiritual pareciam dois programas diversos e complementares para que meu dia fosse sensacional.  Pelo menos é o que estava na minha programação; entretanto, o dia me reservaria muitas outras emoções...

Para começar, eu e minha amiga Lígia nos dirigimos à estação ferroviária, ou melhor, ela me dirigiu até lá. Entramos no Amtrak e partimos para o nosso destino. O trem americano era bem diferente do coreano e o chinês que costumo pegar no Rio: tinha dois andares, muitos assentos, uma área para refeição e contava com uma fiscal para checar as passagens. Durante a viagem de aproximadamente uma hora e meia, pude apreciar pela janela algumas cidades pouco comentadas como Moorpark e Carpintaria até chegarmos à Santa Bárbara, considerada a Riviera Americana. Antes de saltarmos, chamou-me a atenção a grande quantidade de trailers estacionados ao longo da orla e muita gente que estava provavelmente de férias, entre elas alguns surfistas e poucos banhistas. Descemos e o primeiro lugar escolhido para visitar foi o Stearns Wharf, um charmoso píer de madeira onde se pode desfrutar de restaurantes, lojas, um museu marítimo e uma bela vista da praia. O dia estava ensolarado e enchi-me de disposição em andar à beira-mar enfrentando um vento típico de cais.  No píer, avistei postes em estilos antigos, bandeiras de várias nacionalidades , inclusive as norte-americanas , e passei por muitos turistas como eu, que vinham a pé, de carro ou bicicleta, além de diversos pescadores e gaivotas. Aliás, tive a oportunidade de ver uma gaivota bem de perto, assim como uma ave semelhante a uma cegonha que roubaram a cena, pois pareciam po(u)sar para receber os animados cliques das câmeras por todos os lados.

Parei e admirei por alguns momentos a serenidade do cenário: as montanhas ao fundo, as casas, as faixas de areia e as palmeiras que embelezavam toda a extensão da praia. Contemplei também os praticantes de esportes aquáticos tranquilos em seus barcos a vela, caiaques e pranchas de stand-up paddle. Os raios de sol faziam um belo reflexo na água e me fizeram imaginar que para completar a obra só faltava eu dar um bom mergulho nas águas do Oceano Pacífico... Não foi dessa vez, mas só a paisagem já valeu a pena. Depois deste deleite para os olhos era hora de satisfazer a manifestação do estômago e, ainda com tempo para algumas fotos e compras, fomos para um ótimo restaurante perto do píer. Ali degustei um prato de camarões acompanhado de um copo de cerveja tão grande que devia ter uns 600 mililitros! Assim, o dia parecia quase perfeito... Comecei a pensar que Santa Bárbara, mártir da perseguição dos cristãos no século IV, nunca imaginou que seu nome seria dado à uma cidade tão bonita. Uma justa homenagem. Empolguei-me e lembrei-me também do caso de São Francisco e passei o resto do almoço contando a história dele para a Lígia. Posso dizer que o camarão gostoso, a cerveja gelada, a boa companhia e as histórias inspiradoras me fizeram devanear. Tudo ótimo, mas eu não poderia perder a visita à “Old Mission”.

Dali, saímos para pegar um trolley, que é um ônibus bonitinho, todo branco com uma faixa azul no meio, de baixa altura e com largas janelas. Pude apreciar as ruas com precisão, especialmente a State Street, bem extensa, cheia de árvores, flores, cafés, restaurantes, bancos, lojas e um mundo de variedades. Saltamos e como diz o ditado que “nem tudo são flores”, o calor estava muito forte, começamos caminhar até a Missão e depois de um tempo... nem sinal. Aí é que descobrimos tudo o que não queríamos: saltamos no lugar errado. Andamos até achar outro ponto e esperar por um ônibus na direção contrária. Para minha alegria logo chegou um, mas quando saltamos, vimos que novamente não estávamos nada perto da Old Mission. Andamos sob aquele sol escaldante e tudo o que víamos eram residências e mais chão. A sensação era de que estávamos perdidas. Pensei: “E agora?” Paramos para pedir informações, andamos mais ainda, até que a Lígia se lembrou de algo muito importante: Já passava das 16h. E eu disse que o lugar ficava aberto só até às 16:15h. Pronto! Se a gente demorasse por mais tempo eu ia perder o passeio pelo qual estava mais empolgada nos Estados Unidos! Não, seria castigo demais... Comecei a ficar chateada. Fiquei pensando na bobagem que eu fizera em não consultar mapa nenhum para chegar lá. Eu nem queria mais saber que horas eram quando finalmente avistamos a Igreja. Era linda! Bem grande, branquinha com detalhes em rosa claro em uma ampla área verde, com as tradicionais palmeiras da Califórnia, um jardim com fonte e parte da grama decorada com pinturas artísticas. Pensei: “Se eu não conseguir entrar, pelo menos não perco a foto...” Quando chegamos à bilheteria, para nossa surpresa, descobrimos que ainda estávamos no horário de entrar. Que alívio! Conseguimos! A partir daí, o passeio foi mais rápido do que previmos, mas o suficiente para eu me encantar com o vídeo, as fotografias, os objetos e as relíquias da exposição que contaram toda a história dos missionários franciscanos de Santa Bárbara. E foi um prazer imenso poder andar pelas dependências da Missão, entrar na capela com esculturas em tamanho natural de São Francisco, Santa Clara, Jesus e Maria Madalena, entre outros, passear pelo Sacred Garden (Jardim Sagrado), conhecer o cemitério e o Mausoléu dos religiosos, além da exposição propriamente dita, inclusive com obras feitas pelos indígenas. Foi mesmo emocionante entrar e sair pelos corredores que respiravam história e espiritualidade. E como não poderia faltar a ida à lojinha de lembranças, comprei material logo que entrei. Quando saí, separei mais alguns livros e aí recebemos o aviso de uma vendedora: “o horário de compras está encerrado!”. Indaguei-me: “Será que não vão mesmo aceitar que eu compre com tudo já escolhido?” Então, a senhora que trabalhava como caixa resolveu “dar um jeitinho para uma brasileira” e consegui comprar meus livros. Depois saí com a Lígia para uma sessão de fotos nos jardins do lado de fora. Uma beleza!

A tarde ia caindo e tínhamos que voltar.  Apesar dos percalços, saí bem satisfeita com a visita. Pegamos mais um trolley até a estação de trem e aí é que pude realmente admirá-la. De cor caramelo, com aberturas em forma de arco, tinha uma estrutura arquitetônica que lembrava as construções espanholas. E, como em todos os lugares da Califórnia, era bem-organizada e cercada de árvores e jardins. Agora um dado interessante: O banheiro não tinha uma fechadura tradicional, mas um teclado como o de um cofre de hotel. E só podia ser aberto através de uma senha dada na bilheteria. Nunca pensei que fosse precisar de um código secreto para entrar em um banheiro... Pelo menos ali, o toalete feminino parecia ser tratado como assunto confidencial... 

 

Pegamos o trem de volta, cansadas, mas felizes. Mais um passeio que era forte candidato a se tornar inesquecível! Apreciei mais uma vez a paisagem da janela do trem com a certeza de que, mesmo com os imprevistos e os pés doloridos, tudo valera a pena. E quando me lembro da praia, do píer, do cenário efervescente da State Street e da paisagem da Old Mission, fico com uma vontade de voltar... Quem sabe um dia. Por ora, fico na nostalgia e na certeza de que mais projetos virão...



Escrito por Debbie Fontaine às 15h35
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UMA CARIOCA EM TERRAS CALIFORNIANAS


Califórnia

 

Viajar. Amo viajar. Embora minhas viagens não sejam tão frequentes quanto eu gostaria, toda a vez que eu arrumo a mala e me lembro que por alguns dias ficarei apreciando novas paisagens, culturas e sabores, já entro no ritmo da alegria. Só de pensar que vou andar por mais um pedaço deste mundo e desfrutar de momentos livres dos compromissos diários, a satisfação é imensa... E a minha mais recente aventura como turista não fugiu a esta prazerosa regra. Fui à Califórnia para rever uma querida amiga e passei duas semanas que, de tão surpreendentes, se tornaram atípicas. Não houve dia em que eu não me tenha impressionado de modo positivo com as cidades que visitei. E garanto, a viagem superou todas as minhas expectativas e minha visão dos Estados Unidos nunca mais será a mesma. Como quinze dias puderam causar tamanho impacto? Até eu pretendo desvendar esse mistério nas próximas linhas...

No meu imaginário, toda vez que falavam em Califórnia, eu logo visualizava cenas de praias, surfistas pegando onda e filmes de Hollywood. Lembrava-me também da famosa “corrida do ouro” do século XIX e do fato que, se fosse uma nação independente, este estado norte-americano ocuparia a 6ª posição no atual ranking das maiores economias do mundo*. E com tantas boas referências, como é que só este ano decidi economizar para fazer um passeio por lá? Questionamentos à parte, admito que o cotidiano da minha cidade contribuiu muito para a mudança de planos. Por exemplo, no Centro do Rio de Janeiro em dias de ato político, ouvir bombas, rojões, tiros de bala de borracha e ver passeatas seguidas de saques, depredações e conflitos com policiais, já são consideradas atividades locais. E para quem, como eu, trabalha na região próxima a Cinelândia, Largo da Carioca e Assembleia Legislativa pode dizer que se sente praticamente “no olho do furacão”. Como veem, o Centro do Rio é também o Centro das Emoções. Apesar do meu amor pelo Rio de Janeiro, eu estava ávida para tirar férias e viajar para um lugar bem distante dessas e de outras turbulências. Há tempos também eu queria rever a Lígia, amiga de longuíssima data, que reside na pacata Simi Valley, Califórnia. Então, falei com ela e resolvi ir para os States. Pesquisei alguns roteiros, mas sem vasculhar muito para não chegar lá com qualquer sensação de “déjà-vu”.  E assim fui, sem saber muito o que me esperava, mas por vários motivos pessoais, com a certeza de que realmente valeria a pena.

Cheguei a Los Angeles em um dia ensolarado e lá estavam a Lígia e o seu marido James para recepcionar-me. Eu não os via há mais de dez anos, e então fiquei numa felicidade só! Entrei na pick-up deles e pelo caminho passei a contemplar as formações rochosas e a singular vegetação da região dos vales depois que deixamos os muitos prédios de L.A. para trás. E à medida que chegávamos a Simi apareciam no cenário belas residências com jardins para deleitar a minha vista. Logo na chegada, deparei-me com um cenário de filme: a rua era toda composta por casas lindas e espaçosas como na série “Desperate Housewives”! E não era só a rua dela, mas praticamente todas daquela cidade e das vizinhas como comprovei dias depois. Além de Simi Valley, pude ver tanto em Filmore, Moorpark, Northridge e Thousand Oaks que, de um modo geral, as casas eram bem amplas (várias de dois andares) sempre com jardins, rodeadas por árvores como pinheiros e palmeiras, ambiente adequado para visitantes do reino animal como o beija-flor, esquilos e até coelhinhos cinzentos que podiam ser vistos correndo pelos gramados.

Amei cada vez que eu pude dar uma caminhada pelo bairro onde me hospedei. Que grande prazer eu tive em poder pisar em calçadas tão bem-cuidadas, limpas, planas, sem rachaduras, buracos ou obstáculos a desviar! E também de andar em uma lugar onde o pedestre é que tem prioridade e os carros param para as pessoas passarem. Aliás, isto ocorre em cidades em que o automóvel particular é o meio principal de transporte, pois lá se você não possui um carro, tem boas chances de não sair do lugar. E quanto à segurança? Era tão grande que só havia experimentado tal sensação no Brasil quando andei sozinha pelas ruas de Gramado/RS. E por falar em sair sozinha, um dia aventurei-me a andar pelas ruas só com a minha câmera como companheira. Fiquei tão animada em tirar as fotos pela vizinhança que saí sem dinheiro, celular e até documentos... Uma coisa que até que aquele momento era inimaginável para mim, ainda mais estando em uma terra estrangeira! Mas, afinal, o que uma paisagem encantadora não nos faz?

Saí e fiquei muito agradecida a Deus por estar desbravando aquelas ruas da América Norte como jamais pensara antes. Andei, olhei e fotografei cada imagem que se sobressaltava aos meus olhos. Observei que cada residência tinha janelas sem grades, chaminé no topo, uma cerquinha ou muro baixo (outras nem isso!), garagem com espaço para dois ou três carros e muitas contavam na entrada com uma cesta de basquete, trailer estacionado e uma bandeira americana a tremular.

Assim eu pude admirar as flores ao longo das ruas, tocar folhas de diferentes árvores, sentir o clima quente e seco na pele e saber que havia ainda muito o que contemplar... O calor era intenso e a forte luminosidade contribuiu para que cada foto captasse o cenário com nitidez. E enquanto eu caminhava, passava por tradicionais caixas de correio e latões de lixo pretos, verdes e azuis - tão vistosos que nem refletiam seu conteúdo -  até que parei numa área de nome Indian Meadows, onde havia alguns bancos para sentar. Ali parei um pouco e vi uma caixa com saquinhos de emergência para cães, caso os bichos resolvessem fazer qualquer necessidade básica. Tudo era cuidadosamente planejado para evitar imprevistos e manter a região com toda a limpeza. Parecia até que eu estava em outro mundo...

 E como nada é perfeito, o sol não dava trégua e antes de fotografar, eu tinha sempre que observar se havia alguém nas janelas, principalmente depois de perceber que andava “sem lenço e sem documento.*” A situação ainda piorou quando avistei uma placa que dizia mais ou menos assim: “Há câmeras em toda a região. Caso notem algum indivíduo em atitude suspeita, reportem à polícia imediatamente.” Pensei: “Pôxa, sou brasileira, tirando foto de propriedades privadas americanas; ninguém aqui me conhece e estou sem passaporte. Se alguém me achar suspeita, estou ferrada.” Senti o susto, mas não deixei de voltar cheia de boas fotos comigo. Podem até pensar que estou exagerando, mas saibam que, em outra ocasião, eu e a minha amiga fomos abordadas por um funcionário de um centro cultural indagando porque estávamos fotografando. Depois de explicar que eu era turista e, como tínhamos chegado antes da hora da abertura do local, decidimos tirar umas fotos, fomos liberadas... É, segurança lá é coisa séria. Por mim, estava tudo bem e nada tenho a reclamar. Não me canso de pensar como todos os lugares poderiam ser belos e organizados assim!

        A Califórnia, no entanto, era muito mais do que casas bonitas e ruas bem-cuidadas. Por onde passei, vi que o capricho era a ordem do dia. Os mercados, farmácias, lojas, restaurantes e igrejas seguiam o mesmo padrão de qualidade, limpeza e organização. As pessoas em geral eram educadas e simpáticas, incluindo vendedores e atendentes. O respeito ao próximo parecia uma característica já enraizada na sociedade e contribuía muito para garantir o bom funcionamento do sistema. Ah, a Califórnia me proporcionou passeios inesquecíveis! Na volta ao Rio, soube que, quando uma amiga perguntou por mim no trabalho, um colega respondeu que eu estava em pleno “Californian Dream” (Sonho Californiano). Vejo mesmo que ele tinha razão. Mas, o melhor da história é que o sonho não parou por aí. E tenham a certeza de que tão cedo não tem como parar... Aguardem-me!

 


*Obs.1: Segundo dados oficiais divulgados pelo Escritório de Análise Econômica dos Estados Unidos (Bureau of  Economic Analysis) em 2016. 

 

*Obs2: Alusão a trecho da música “Alegria, alegria” de Caetano Veloso. (1968)




Escrito por Debbie Fontaine às 16h49
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GRATA PELA ROTINA E PELA AVENTURA

 


Passeio

 

Após ler “Piquenique na Solidão” e “Rotina” da minha cronista predileta Elsie Lessa, fiquei a pensar na riqueza dos dois temas tão diferentes entre si e que curiosamente foram abordados um depois do outro na seleção de crônicas “A Dama da Noite”. O primeiro texto fala do prazer de explorar o novo em nossa própria cidade, tal como pegar uma condução para um bairro desconhecido, comprar em uma loja em que nunca entramos, andar por ruas inesperadas, sentar em um restaurante qualquer, conversar descontraidamente com um estranho e desfrutar de um dia repleto de novidades. O segundo texto trata da falta de gratidão que as pessoas têm em geral ao não reconhecer as maravilhas das quais muitos de nós podemos desfrutar como tomar um saboroso café da manhã, dormir em bons lençóis, ler jornal, e até tomar um banho de chuva. Assim, passamos os dias sem perceber que “o sol se acendeu na maior lindeza, em frente à nossa janela”, como diz a autora, e não agradecemos pela saúde, paz e alegria de um dia, mas quando nós perdermos algumas dessas dádivas, entramos em desespero.

  Vou começar minhas reflexões pela ordem inversa e analisar a segunda questão. É sempre difícil apreciar as maravilhas com que me deparo durante o dia, mas sei que nem sempre foi assim. Quando era criança, eu ficava longo tempo admirando o que via ao meu redor. Depois lembro-me da época de faculdade em que vivia embevecida no mundo da literatura e das artes. Só não sabia sentir-me tão agradecida porque não tinha a noção que tenho hoje da obra divina, mas eu sabia apreciar o cotidiano. Muito desse meu olhar de fascínio com o tempo foi se perdendo. Mas, nos últimos anos, após tanto ser lembrada da importância da gratidão por coaches, psicólogos e sacerdotes, estou convencida que as coisas boas da vida estão em todo o lugar e basta olhar com atenção para encontrá-las. E aí devo recorrer ao meu olhar infantil para que isso aconteça. Reconheço a importância do agradecimento e concordo que muitas vezes não apreciamos o que vida oferece de belo e só o percebemos quando nos falta.

Quanto à primeira crônica, essa trouxe-me à memória toda a sensação prazerosa de provar o novo. Uma atividade sempre intrigante, lírica e motivadora como nas palavras de Elsie Lessa: “Abra largamente as janelas para o horizonte e olhe as casas que amanhecem, o rumor dos veículos lá embaixo na rua, um pedaço de praia ou de montanha, como se o visse pela primeira vez.” E com essa inspiração devemos sair para viver o ineditismo do dia. Se há uma ideia que sempre me agradou foi esta: sair de casa para conhecer outros lugares e viver novas experiências. E não há férias que eu não procure por essa sensação. No meu mais recente período de folga em janeiro deste ano, por exemplo, planejei sair sozinha e tirar o dia inteiro livre. E o melhor de tudo: consegui. Não fui a nenhum lugar 100% desconhecido ao contrário da proposta da autora, porém tive experiências bem fora da minha rotina diária.

Arrumei-me ainda pela manhã, saí e peguei o trem e o metrô na hora que quis e saltei no Centro da cidade. Lá, parei para olhar uma vitrine de uma loja pela qual passo quase todos os dias, mas como em “Piquenique na Solidão”, eu nunca havia entrado. Fiz uma ótima compra, segui pelo Novo Passeio Público e fiquei a apreciar as melhorias feitas na Av. Rio Branco para as Olimpíadas de 2016. O caminho pode até ser meu velho conhecido, porém esse ar e aparência renovados deram um frescor na paisagem que não me canso de admirar. Entre as minhas descobertas, despontou o restaurante do Clube Militar. Detalhe: estou há anos para conhecê-lo. Cheguei, escolhi meu prato, sentei-me em uma mesa confortável, pedi a bebida para um garçom muito bem-vestido, apreciei a decoração, assisti a umas notícias em um telão de TV, terminei calmamente meu almoço, paguei muito menos do que imaginava e, na hora da saída, entre outras cortesias, tomei um pequeno copo de caipirinha para finalizar a visita com “drink de ouro”. Comecei bem o passeio!

Embalada nesse pique, andei até a Estação Carioca e peguei o bonde VLT na minha estreia como usuária do mais novo veículo da cidade. Aliás, a atividade figurava entre as sugestões de Elsie Lessa, sendo que a versão antiga do bonde não deveria ter comparação com a atual. O VLT deslizava sobre os trilhos e as largas janelas do veículo não deixavam o passageiro perder nenhum detalhe do cenário. Isso, claro, porque não estava lotado. O trajeto foi curto, mas a satisfação foi grande. Depois, saltei e fui a pé com toda a disposição conferir o Mosteiro de São Bento após a reforma. Foi crescendo em mim a ânsia de rever as instalações que não visitava há mais de dez anos! Porém, como não resisto a uma boa livraria, no meio do caminho, resolvi entrar na Comunidade Emanuel disposta a sair de lá com alguma aquisição. Chegando lá, deixei os livros de lado e decidi comprar CDs de palestras e até um DVD para usufruir de mais momentos de sabedoria. Pela primeira vez, conversei com uma simpática vendedora e, com isso, demorei-me lá bem mais do que eu pensava. A visita ao Mosteiro, entretanto, não podia ser esquecida. E por mais incrível que pareça, de um pequeno trecho de uma rua para outra, quase me perdi... Na Rua Dom Gerardo, informaram-me que eu poderia subir ao Mosteiro por um recém-inaugurado elevador. Animei-me com mais uma novidade e lá fui eu, mas eu olhava para a direção indicada e não conseguia encontrar nada. Depois de olhar e reolhar em vão, perguntei a dois trabalhadores de obra onde ficava o tal elevador. O primeiro não sabia nem que ali havia um Mosteiro e o segundo não sabia que havia elevador. Era só o que me faltava... Quando já tinha me decidido a subir a pé, um terceiro ouviu a conversa e, para meu alívio, me indicou o caminho certo.

Subi, passei por um setor também em obras e por fim entrei no Mosteiro. E grande foi o meu encanto. Encontrei um grupo de turistas estrangeiros que pouco depois saiu e - quem diria? - o Mosteiro tão belo e grandioso em seus detalhes arquitetônicos passou a ser quase todo meu... Parei para olhar imagem por imagem e contemplei as peças, pinturas e pormenores da nave, do presbitério, dos confessionários, e de tudo o que eu pudesse admirar. Ajoelhei-me, orei o tempo que julguei necessário e passei a fazer incursões em partes anteriormente inexploradas por mim, incluindo as laterais internas e o Batistério. Aquele ambiente espiritual construído em 1590 com tanto esmero me preencheu de paz e satisfação. E pensar que a beleza desta obra fundada pela Igreja Católica até hoje resplandece com seu estilo colonial no Centro do Rio de Janeiro... Depois desses momentos contemplativos, saí e entrei na livraria (minha parada obrigatória), passei lá mais de uma hora de prazer e escolhi novos títulos para a minha coleção. Na saída, olhei e despedi-me do Mosteiro na certeza de que tinha passado realmente uma tarde feliz.

Ainda encontrei forças para andar até a Estação de metrô da Uruguaiana, saltar na Central do Brasil e pegar um trem no retorno à casa. Depois de tanta andança, eu comemorava as calorias perdidas e as alegrias vivenciadas. De fato, essa foi a experiência mais próxima que tive nos últimos tempos de um “piquenique na solidão”. Que mais programas como esse venham por aí! Contudo, ainda não descartei a ideia original de Elsie Lessa de fazer uma jornada ao desconhecido no Rio, incluindo passar por casas e olhar para mobílias, rostos diferentes, gatos em janelas e aspirar o aroma de um café bem quentinho preparado na hora. E no final da tarde, para coroar minha conquista, exatamente como na crônica, sentar em um bar e pedir uma boa cerveja gelada... Ah, conselhos assim, com certeza, eu não vou dispensar...

Só de imaginar as cenas, já me sinta grata. A partir de agora, tanto pela aventura ou pela rotina, vou procurar mais motivos para agradecer a Deus. Recomeço agora pelas crônicas e dicas da minha querida Elsie Lessa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 13h12
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DOM BOSCO: UM EXEMPLO DE EDUCAÇÃO PARA JOVENS


 

Dom-Bosco


Li recentemente com muita curiosidade e satisfação a biografia “Dom Bosco – Fundador da Família Salesiana” de Robert Schiélé e passei a refletir sobre a cativante trajetória desse sacerdote italiano que contribuiu para mudar, do século XIX até hoje, a história de incontáveis jovens ao redor do planeta com sua proposta inovadora na educação. Dom Bosco implementou um modelo educacional que desafiava e ainda desafia o senso comum, pois conseguia conquistar garotos vindos de um panorama bem conhecido de nós brasileiros: pobreza, exploração e delinquência. Mesmo em meio a esse cenário adverso, o dedicado religioso ajudava os jovens a transformar-se em rapazes estudiosos, profissionais qualificados e cidadãos honestos de bem. Qual era o segredo? Convido vocês agora para participarem comigo dessa descoberta...

A resposta é aparentemente simples, pois tudo o que o padre católico fazia era tratar os jovens com muito amor. Ele desenvolveu uma pedagogia que tomava como base a razão, a religião e a bondade e, nesse empreendimento, foi mais do que bem-sucedido. Ele procurou educar e profissionalizar os jovens, oferecendo-lhes ao mesmo tempo uma sólida formação moral e espiritual e essa combinação proporcionou-lhes uma mudança profunda em termos de comportamento e postura diante da vida. Os alunos de seus estabelecimentos amavam Dom Bosco porque sabiam que o sentimento era recíproco. O caminho para alcançar tanta realização, entretanto, foi bastante difícil, como pode-se imaginar. Para uma melhor compreensão do método usado por esse genial religioso e educador, venham conhecer um pouco de sua história...

João Bosco nasceu em 1815, em Piemonte, região campestre da Itália. Quando criança, ele era atlético, animado e mostrava-se à vontade em papel de liderança.  Porém, O pequeno João tinha temperamento difícil e costumava brigar com outros meninos quando surgiam problemas. Um dia ele teve uma revelação: sonhou que alguns garotos blasfemavam e João, como cristão devoto, não admitia essa prática e resolveu bater neles. Eis que surgiu Jesus e lhe disse: “Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos. Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pecado e a preciosidade da virtude.” Então, João avistou a Virgem Maria que lhe mostrou animais ferozes dos quais deveria cuidar. Depois eles se transformaram em cordeiros mansinhos e quando João perguntou à Maria sobre o significado de tudo aquilo, ela lhe respondeu: “A seu tempo, tudo compreenderás.” A partir desse sonho, que seria o primeiro de vários, João foi se interessando pela possibilidade de ser um sacerdote. E que sacerdote ele ainda viria a ser!

João Bosco, em 1841, já ordenado-, formou um pequeno oratório no vilarejo de Valdocco em Turim, denominado Oratório São Francisco de Sales, em homenagem ao santo cujo exemplo lhe inspirava. No início, os garotos residiam lá, estudavam e usufruíam de alimentação, missa diária, catequese, recreação, esporte, música, teatro e muito amor. Os garotos sentiam-se acolhidos, felizes e viam João Bosco como um pai e amigo, que os orientava com amabilidade e até participava dos seus jogos com alegria. Mais tarde, o oratório foi crescendo, o sacerdote foi criando escolas/internatos e desenvolveu o ensino médio/profissionalizante que abrangia o aprendizado de sapataria, mecânica, alfaiataria, marcenaria, tipografia, encadernação e até uma fundição de tipos e forja. Eram diversas oficinas que preparavam os rapazes para o mercado de trabalho na época. O projeto, apesar de muitas dificuldades, ganhou novos adeptos até que em 1859, Dom Bosco fundou a Congregação dos Salesianos impulsionando a obra e expandindo a criação de centros educacionais. Para o novo método, o futuro santo chamou de “Sistema Preventivo” que conquistava os jovens através de palavras e atitudes carinhosas, o uso da razão e abolia os castigos físicos – prática comum em seu tempo - para prevenir os maus atos. O respeito e a admiração por Dom Bosco eram tão profundos que os meninos sofriam ao desapontá-lo. Dom Bosco escreveu sobre o “sistema preventivo” afirmando que o objetivo do educador é proporcionar “a formação cívica, moral e científica de seus alunos.” Escreveu ainda que “o educador entre os alunos procure fazer-se amar, se quer fazer-se respeitar” e “não é suficiente amar os jovens: eles têm que saber que são amados.” Em resumo, o educador deveria ser o exemplo maior para os estudantes através do amor. Deste modo, os jovens teriam todo o prazer em aprender com o seu mestre, pois o amor seria parte integrante e fundamental do processo de aprendizagem.

João Bosco ainda descobriu o trabalho excepcional de Maria Domenica Mazzarello que, junto com uma amiga, cuidava de algumas jovens de sua região e ensinava-as os valores cristãos com amor e alegria, promovia atividades recreativas, fazia passeios, além de preparar as meninas para a vida profissional como costureiras. Após conhecê-la, Dom Bosco deu todo aval para a criação de um colégio especializado para meninas nos mesmos moldes que fazia com os garotos. A partir dessa nova experiência, o sacerdote fundou em 1872 o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, que seria o braço feminino dos Salesianos. O instituto e todo o projeto ficou sob a direção da dedicada religiosa que se tornou Superiora da Congregação. No final da vida, Dom Bosco percebeu a dimensão das palavras da Virgem Maria e compreendeu, enfim, tudo sobre sua missão. Quando ele faleceu em 31 de janeiro de 1888, os salesianos com seu trabalho iluminado já tinham se expandido pela Europa e já atuavam na América Latina. Hoje, eles estão presentes em todos os continentes. As belas histórias de São João Bosco e Santa Maria Domenica já ganharam as telas com as produções italianas “Dom Bosco” (1988) e “Main – A Casa da Felicidade” (2012) e os dois filmes fizeram com que a minha admiração por eles e, por tudo que fizeram, ganhasse uma dimensão ainda maior. Não canso de pensar que todas as conquistas alcançadas pelos dois santos só foram e ainda são possíveis porque o amor consiste como fundamento para a educação nos colégios salesianos.

Quando vejo a situação do Brasil no século XXI, em que o Atlas da Violência 2016* constatou que o nosso país em termos gerais figura em 15º no ranking, mas em números absolutos é o campeão mundial de homicídios, questiono-me sobre a educação tanto familiar como institucional recebida pelos jovens que engrossam os índices de violência como vítimas ou protagonistas. E quando me lembro que há também uma parcela cada vez maior da nossa juventude sofrendo por causas como abandono pelos pais, estupro, abuso sexual, bullying, desemprego, dependência química, enfim tantas gravidades, passo a imaginar que tudo seria diferente se todos desde o nascimento recebessem mais amor. Seria isso impossível? E aí me vem à mente o exemplo extraordinário de Dom Bosco que dedicou toda a sua vida a crianças e adolescentes e fora intensamente amado por eles... O método salesiano que unia formação católica, escolaridade, esporte, lazer e ensino profissionalizante para meninos e meninas parece-me dos mais apaixonantes de que já tive notícia.

Dom Bosco passou pela vida como um cidadão íntegro e profícuo, engajava-se com todo o entusiasmo em suas atividades e por isso serviu de modelo para os jovens, leigos, sacerdotes e educadores. Penso que se a filosofia de seu modelo educacional fosse bem aplicada nos colégios brasileiros em geral, nossa realidade seria transformada. E para melhor... Embora o conteúdo formal sempre possa ser revisto de acordo com as necessidades de nosso tempo, assim como o tipo de ensino profissionalizante implementado, o amor que é a base de todos os valores cristãos nunca deveria sair de foco. A educação não se faz apenas com instrução formal, pois o ser humano necessita ser visto de modo integral e jamais pode prescindir do amor. Assim fazia Dom Bosco. Ele, na verdade, seguia o exemplo do próprio em Cristo em querer resgatar vidas e fazê-las criaturas novas. Nestes tempos turbulentos em que vivemos, vale a pena conhecer cada vez mais a vida e a obra desse personagem real que passou para a História, nas palavras do Papa São João Paulo II, como São João Bosco, “Pai e Mestre da Juventude”. Vamos comemorar e nos inspirar também em seu exemplo!

 

 

*Obs.: O Atlas Violência 2016 foi um estudo desenvolvido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

       



Escrito por Debbie Fontaine às 22h32
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O MÉTODO KONMARI DE ARRUMAÇÃO SÓ ME TRAZ ALEGRIA...


Arrumação            

 

 

 

Arrumar a casa nunca foi tarefa fácil. Talvez só assim possa parecer a quem nunca arregaçou as mangas para executar essa nobre tarefa. Para mim, se já encontro dificuldades de arrumar 100% o meu quarto, imaginem se eu tivesse que encarar a casa toda... Mas, como moro com minha família, as tarefas são mais divididas e a demanda geral torna-se mais leve. Gosto de muito de organização; o meu problema é o acúmulo de material e, quando dou por mim, fico cheia de livros, revistas e papéis, além de alguns utensílios. Portanto, deixar tudo arrumadinho é uma arte que eu realmente admiro e, apesar da dificuldade, o desejo de fazer a arrumação perfeita persiste...  Este ano, por fim, decidi que colocaria as minhas coisas em seus devidos lugares de uma vez por todas. E aí é que me perguntei: “Como vou encontrar lugar para tudo isso?”, “O quanto vou ter que jogar fora?” Arrumava um pouco aqui e um pouco ali e por mais que eu me desfizesse de coisas, logo surgiam outras. Os objetos pareciam proliferar. Quando eu já estava atordoada sem saber como resolver a questão, descobri o sensacional livro “Isso Me Traz Alegria – Um Guia Ilustrado da Mágica da Arrumação” da japonesa Marie Kondo. Resolvi então apelar para a tão decantada sabedoria oriental e aí alegria foi o que não me faltou. Afinal, um guia cheio de desenhos ensinando como arrumar a casa e só guardar o que nos deixa feliz era tudo o que eu queria. Comecei quase que imediatamente a leitura e decidi que colocaria o método KonMari (como a autora o patenteou) logo em prática. O desafio estava lançado!

Segundo a expert em arrumação, devemos organizar nossos pertences não por cômodos, mas por categorias na seguinte ordem: 1) roupas 2) livros 3) papelada 4) itens variados (komono) e 5) itens de valor sentimental. Gostei da sequência, mas quando pensei em empilhar todas as minhas roupas em um único lugar para começar a seleção, tremi nas bases. E quando li frases do tipo “arrume as gavetas como as caixas japonesas bentô” ou “dobre as roupas como um origami”, vi que era um processo bem diferente de tudo o que já tinha visto e ao mesmo tempo fascinante. Já conhecia um origami, porém confesso que corri para o Google para ver como era a tal caixa bentô. Aprovei o modelo e fiquei a imaginar como eu poderia deixar uma gaveta daquele jeito. Contudo, negava-me a considerar a tarefa como um dos doze  trabalhos de Hércules ou uma missão impossível. E como não sou de desistir de meus objetivos facilmente, um dia eu abri o guarda-roupa e fui à luta...

Animei-me e iniciei a arrumação pelas gavetas. Só pelas gavetas. Pronto! Já comecei desobedecendo o livro... Porém, o fator tempo foi determinante para a minha decisão. Para vocês terem uma ideia, havia já tanta coisa em cada gaveta que, por exemplo, ao puxar uma blusa, eu derrubava outras e ainda desarrumava as que ficavam debaixo para meu desespero. E sempre perdia tempo arrumando tudo de novo... Que raiva! Portanto, tratei logo de aprender as instruções para descartar as roupas que não me interessavam mais, depois dobrar as minhas peças favoritas em forma compacta de retângulo e colocá-las em ordem vertical para ganhar espaço e facilitar a identificação. Também aprendi a tratar os sutiãs como “membros da realeza” e dispor todas as minhas peças com cores claras na frente e as mais escuras atrás formando um efeito dégradé. Aí constatei que não estava enfrentando uma luta, mas experimentando um distinto prazer ao tocar minhas roupas, selecionar quais me faziam bem, quais eu achava mais bonitas, quais cabiam em mim... e sentir quais irradiavam alegria. No final das contas, o balanço foi mais do que positivo e o efeito visual foi uma sequência de peças coloridas, organizadas e tratadas com muito carinho.

Antes de chegar a esse ponto, entretanto, passei pela grande aventura de arrumar minhas meias. O que Marie Kondo diz sobre o assunto? “Fazer ‘bolotas em formas de batatas’ com as meias e meias-calças ou dar nós nelas é uma coisa cruel. Pare agora mesmo com esta prática.” Nestes termos. No caso de dar nós era justamente o que eu fazia e ainda por cima deixava as meias todas dentro de um saco. Podem imaginar que eu já tinha perdido a conta da quantidade delas há muito tempo... Segui, então, a recomendação da autora, dobrei todas as meias com esmero e não fiquei com as que tinham furos ou estavam desfiadas.  Essa diretriz me ajudou a descartar de cara vários pares e a arrumar belamente todas as meias, uma por uma. A partir daí, eu poderia sentir-me, através das minhas roupas, valorizada da cabeça aos pés, literalmente. A minha empolgação foi só aumentando e, depois que as minhas gavetas já estavam arrumadas, fiquei numa felicidade só. Nem tinha sido tão difícil assim... Marie Kondo disse que muitas das suas clientes ficavam tão satisfeitas após a arrumação que abriam e fechavam suas gavetas várias vezes só para contemplar o resultado. Não resisti e fiz mesmo. E ainda resolvi tirar fotos para registrar o feito histórico.

A próxima etapa foi cuidar das demais partes do guarda-roupa, tarefa que reservei para outra data. Antes de ler o livro eu aplicava só duas técnicas para fazer a arrumação. Eis a primeira: separar as roupas nos cabides por cores e estação. Por isso, posiciono as roupas de frio em uma parte do móvel e as mais leves em outra, colocando todas dispostas por variações de tons. Por exemplo, arrumo uma sequência de cabides com peças azul-marinho, a próxima com peças azuis mais claras, a seguinte com verdes e por aí vai... A segunda técnica eu aprendi através de um e-mail que recebi sobre Feng Shui: descartar pertences na mesma proporção que adquirir novos. Na verdade é a única parte do Feng Shui da qual consigo lembrar-me. No caso, se eu comprar três blusas novas e duas saias, eu logo providencio o descarte de três blusas e duas saias usadas. Se não conseguir fazer tudo bonitinho, eu descarto cinco peças e pronto. Desta forma, mantenho o equilíbrio no número de roupas, meu armário jamais fica abarrotado, tenho sempre artigos novos, renovo a energia do ambiente e ainda posso ajudar as pessoas doando itens. Dicas simples e eficientes.  E o guia de Marie Kondo foi decisivo para mim ao trazer a ideia inspiradora de só manter o que dá alegria. Isso facilitou e muito o processo tanto de descarte quanto de armazenamento. Só não consegui aplicar o princípio de agradecer a cada item ao me desfazer dele. Como agradecer a um ser inanimado? De qualquer maneira, senti-me grata como um todo por ter usado aquelas peças. Depois das gavetas, já preparava minhas baterias para impulsionar a arrumação do restante.

Reservei um ou dois fins de semana para a segunda etapa do desafio. Como o guarda-roupa estava com meio caminho andado foi moleza! Mantive o padrão que eu já usava, pois era quase idêntico ao do guia. E, para fazer tudo como mandava o figurino, coloquei as bolsas menores dentro das maiores, pus todos os chapéus, viseiras e bonés na parte alta do móvel e quando vi o espaço parecia ampliado e os itens coloridos e arrumados brilhavam aos olhos... Terminei a proeza e quase não acreditei: tudo estava tão bonito, organizado e bem-feito que a alegria não irradiava apenas das roupas, mas de mim. Saibam que quando alguma coisa saía do lugar eu logo tratava de pôr de volta. Assim podia visualizar quase todas as peças com facilidade e ganhar muito mais tempo para decidir o que vestir em cada ocasião. Como valeu a pena! E ainda tomei fôlego para fazer o mesmo processo com todos os meus calçados.

 Outra parte boa foi quando apliquei o método para arrumar a mala nos preparativos das minhas férias para Fortaleza. Dobrei cada roupa até diminuir de volume para formar o famoso retângulo e depois coloquei tudo na vertical. Preferi levar peças mais leves que não se amassassem muito, levei embalagens e frascos pequenos com sabonete líquido, pasta dental, cremes hidratantes, escovas, pentes e tudo o mais que ocupasse pouco espaço. O resultado é que viajei com tudo o que eu queria, necessitava e ainda me dava alegria. Alegria também foi ver que a mala parecia muito maior do que realmente era. Para completar, fiz compras suficientes que puderam preencher os espaços vazios e a minha satisfação pessoal. Voltei com sorriso de orelha a orelha com o efeito das férias e da organização.

Só há um pequeno problema: não fiz ainda nem metade do que recomenda a autora. O vestuário pode estar arrumado, mas só de pensar que o próximo passo é encarar os livros e depois vem a papelada é de arrepiar... O final do ano está chegando e a conclusão do desafio vai ficar para as metas de 2017. Vou deixar para contar as novas emoções aos leitores em outra oportunidade. Não percam as cenas do(s) próximo(s) capítulo(s) aqui no meu blog e acompanhem o que será “2017 - uma odisseia no meu espaço*...”

 

Obs.: Brincadeira com o nome do filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick  (1968).

 

 




Escrito por Debbie Fontaine às 12h42
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         UMA TARDE NA ESCOLA DOM CIPRIANO CHAGAS

 

 Escola Dom

 

No período olímpico, entre as minhas várias andanças, aproveitei uma tarde para fazer algo que há muito tempo era do meu desejo. E não se tratava de assistir a alguma modalidade esportiva, mas de fazer uma visita, sem horário para voltar, à minha escola predileta: a Escola Dom Cipriano Chagas em Botafogo. Apaixonei-me por esse projeto da Sociedade Providência assim que fiquei sabendo de sua existência. Portanto, foi um caso de amor anterior à primeira vista. Tudo porque a escola só atende crianças de famílias de baixa renda e tem como objetivo proporcionar-lhes gratuitamente uma educação que transcende a escolarização básica. Pois a Dom oferece formação católica, assistência psicológica, integração social, atividades recreativas, esportivas, culturais, entre várias outras e valoriza a participação das famílias no processo educacional de seus filhos. Além disso, as dependências da escola incluem refeitório, capela, brinquedoteca, horta, quadra de esporte, biblioteca e... já até me perdi. Não há nem como descrever tudo. Com todo esse leque de opções, eu sabia que no dia da minha visita agradáveis surpresas me aguardariam...

 O dia escolhido foi o do “VII Encontro com Autor 2016” que faz parte do projeto literário “Sexta Arte - Formando Leitores, Mudando Histórias” idealizado pelas pedagogas Fernanda Marsico e Nicole Cezar de Andrade. A iniciativa leva mensalmente um autor de livros infantis para contar suas histórias às turmas do 1º e 2º anos do Fundamental, além de distribuir exemplares autografados aos alunos e à biblioteca da escola. Dessa vez, tive o privilégio de conhecer uma jovem autora, a Ana Luiza Sliachticas Caetano, que surpreendeu a todos, pois era uma velejadora que já participara de muitas competições com apenas 13 anos! E, em 2013, lançou “Bons Ventos – Diário de Aventuras Iradas” ilustrado pelo seu irmão João Caetano, também adolescente. Ana Luiza e João inovaram ao ir à apresentação não somente acompanhados dos pais como também de um dos grandes protagonistas do livro: o barco a velas... A partir daí, soltaram-se quaisquer amarras que poderiam prender a imaginação.

Ao se depararem com um barco em plena biblioteca, as crianças não se contiveram diante de tamanha novidade, no sentido literal e figurado. O barco, apropriado para crianças de 7 a 15 anos, era todo branquinho e integrou-se perfeitamente ao cenário alegre e colorido da biblioteca, repleto de livros infanto-juvenis modernos e obras literárias consagradas. Todas as turmas tiveram o prazer de ver a embarcação. E quando Ana Luiza ou “Lulu”, como ela carinhosamente se apresentou, começou a falar às turminhas do 1º e 2º anos, a curiosidade tomou conta do ambiente. As crianças mostraram-se ouvintes atentas, levantando o braço sempre que queriam fazer perguntas e não faltou quem respondesse com entusiasmo às indagações da autora. Entre as perguntas dos alunos, uma das prediletas foi: “Como o barco entrou aqui?” Nem foi preciso Ana Luiza responder, pois as próprias crianças notaram a porta aberta na lateral da biblioteca. Uma e outra pergunta surgiam, porém a questão campeã em atiçar a curiosidade infantil foi a seguinte: “Como o barco anda com essas rodas?” A visão de um barco sobre um suporte com rodas parecia intrigante... Depois de sanar as dúvidas sobre o barco, Lulu passou a narrar as suas experiências como iatista. Contou que já tinha visto de perto animais como golfinhos, baleias e tubarões, enfrentado uma tormenta durante regata em São Paulo, participado de uma competição de adultos quando ainda era velejadora-mirim, além de relatar outras histórias pitorescas. Diante de tantas novidades, a imaginação das crianças (assim como a minha) navegava pelas aventuras marítimas da autora. Fiquei a imaginar como uma menina aos 7 anos já velejava e como conseguiu desenvolver tamanha perseverança para enfrentar as águas, os ventos e as temperaturas nem sempre favoráveis pelo nosso Brasil. É de se louvar ainda a bela ousadia de registrar suas melhores histórias em um diário e decidir publicá-las com tão pouca idade. A curiosidade não tomou conta só das turminhas, com certeza, também tomou conta de mim...

Ao fim do encontro, as crianças levantaram-se e puderam entrar no barco, tocar a vela, segurar no leme, até mesmo sentar-se e sentir-se no lugar do velejador. Elas posaram animadamente para as fotos e todas ganharam um livro com o autógrafo de Ana Luiza. Além disso, elas tiveram a chance de escrever, desenhar e participar de um sorteio de canecas, garrafas plásticas e livros em que todos os contemplados saíram sorridentes. Um verdadeiro sucesso! Para fechar a minha visita com chave de ouro, ou medalha de ouro, seguindo o espírito olímpico, ainda assisti a uma alegre peça teatral encenada por meninas de outra turma, que contou até com número musical coreografado. Um trecho da canção dizia assim: “... de 0 a 10, a Escola Dom é mais de 100!” O verso ressoou nos meus ouvidos e na minha memória. Assim, pude ver em ação o lema da escola “EDUCAR para que cada criança se permita SONHAR, ACREDITAR e TRANSFORMAR.” Uma visão que contribui, inclusive, para que todos os adultos envolvidos no projeto - professores, monitores, voluntários, funcionários, parceiros ou benfeitores - possam também permitir-se a ter novos sonhos e acreditar que é possível oferecer a todas as crianças, independente de classe social, uma educação de alto nível com prazer e criatividade.

E o que tenho a dizer das crianças? Umas gracinhas! Assim que cheguei, vi a turma dos mais novos esperando para entrar na biblioteca. Logo, um menino bem bonitinho acenou para mim e disse: “Oi, tia!” Sorri e retribuí a saudação com alegria. Algumas crianças também ficaram curiosas com a minha presença e me perguntaram se eu era da família da Ana Luiza e do João. Durante a apresentação, uma aluna me perguntou: “Tia, você é mãe deles?” No final, uma outra olhou para mim e indagou: “Tia, você é tia deles dois?” Após a peça teatral, vi umas meninas com revistas em quadrinhos nas mãos, e como admiradora de quadrinhos infantis, parei para olhar e uma logo falou: “Tia...” Como em um “efeito cascata”, mais tarde ao entrar no meu prédio, uma garotinha apontou para mim e disparou... já sabem o quê: “Tia!” E depois disse que tinha uma blusa das Olimpíadas igual à minha. Vou confidenciar uma coisa aqui: amei ser chamada de tia por tantas crianças... Voltando à visita, quando tirei fotos do evento, muitos alunos posaram entusiasmados e gravou-se na minha mente a imagem de uma menina que estendeu os braços ao longo da borda do barco e sorriu para a câmera toda graciosa. Fiquei mais do que feliz.

Naquele dia, com certeza, os bons ventos me levaram à Escola Dom Cipriano Chagas. Quando fui até lá, eu não tinha a menor ideia do que aconteceria; só que haveria um encontro com um autor convidado da Sexta Arte. Assim como os alunos, nunca pensei um dia em ver um barco dentro de uma biblioteca e nem conhecer uma escritora tão jovem! Também foi emblemático ouvir as histórias de uma velejadora justamente na véspera de o Brasil ganhar mais uma medalha de ouro no iatismo e, pela primeira vez, conquistada por uma dupla feminina*. Sensacional! Com Ana Luiza, pude embarcar no seu projeto e sentir-me também a velejar pelas águas da Literatura... Depois transportei-me para a arte da fotografia, do teatro, da música e dos quadrinhos. Arte, arte, arte! Saí de lá com a ideia de que eu vivera um dia altamente inspirador... Foi uma experiência ímpar passar a tarde com crianças atenciosas, alegres e bem-educadas, conhecer novos talentos, além de ter sido, mais uma vez, muito bem-recebida pelos funcionários e pela Gabriela*, diretora da escola. Fico aqui com um gostinho de “quero mais” torcendo para que eu possa desfrutar de mais oportunidades como essa. Pois com tantas conquistas nas modalidades empenho, carinho e dedicação às crianças, a Escola Dom já está no pódio dos corações de todos nós participantes dessa obra maravilhosa, onde, no fim das contas, saímos sempre vitoriosos...

 

*Obs1: A dupla feminina Martine Grael e Kahena Kunze, em 18/08/2016, conquistou a medalha de ouro para o iatismo do Brasil nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. 

*Obs2.: Anna Gabriela Malta, fotógrafa, escritora e gestora escolar.

 

 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 23h08
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RELEMBRANDO ELVIS PRESLEY


 

Elvis

 

 

 

Todos os que me conhecem já sabem que eu sou apreciadora de música antiga e que, inclusive, muitas canções de que mais gosto datam de época anterior ao meu nascimento. No plano internacional sempre ouvi pop, rock’n’roll, jazz, country, disco music e por aí vai... Embora eu prestigie a obra de diversos artistas que despontaram no século XX, há um em específico que me influenciou de forma profunda e inesperada, pois através de sua carreira musical eu vim a conhecer várias pessoas que, de certa forma, contribuíram para tornar minha vida muito mais alegre. Qual artista? Ninguém menos que Elvis Presley.

Quando Elvis faleceu, eu era ainda bem criança e o tinha conhecido pouco tempo antes através de programas na televisão. Lembro-me de que gostei bastante dele, mas só depois daquele fatídico 16 de agosto de 1977 foi que passei a conhecê-lo de verdade. As emissoras de TV na época exibiram uma série de reportagens, filmes, shows e documentários, as rádios passaram a tocar os sucessos de Elvis diariamente e várias revistas decidiram lançar edições especiais em sua homenagem. Naquele ano, houve até a canção “I Remember Elvis Presley” gravada por Danny Mirror que eu não me cansava de ouvir. Acompanhei toda aquela comoção e nem imaginava que era o início de uma história em que Elvis Presley viria a figurar de modo especial em minha vida.

Só em 2008, entretanto, que fui pela primeira vez a um evento dedicado a Elvis, que aconteceu no SESC do Engenho de Dentro. Lá tive uma agradável surpresa: ouvi um desfile de bons intérpretes que cantaram com todo o entusiasmo o repertório Elvístico. Alguns cantaram maravilhosamente bem, sobretudo, o vocalista da banda Tennessee Bourbon, Rodrigo Cardoso. Presenciei, ainda, uma animadíssima plateia de idades variadas que vibrava ao som de “Blue Suede Shoes”, “Hound Dog”, “Don’t Be Cruel”, ao mesmo tempo em que se enternecia com as românticas “Sylvia” ou “Sweet Caroline”. Depois desse dia, tomei a seguinte decisão: “se houver mais eventos como esse, eu quero comparecer, curtir as músicas e conhecer também esses fãs de Elvis!”

Corri atrás e me encantei como os encontros. Fui aos poucos fazendo novas amizades e cheguei a ver novamente a Tennessee Bourbon antes da dissolução da banda. E em 2011 vim a conhecer Regina “Presley”, uma fã ardorosa e anfitriã acolhedora, que promovia divertidíssimas festas sempre ao som de Elvis Presley. Ao chegar a sua casa, respirava-se o clima da Presleymania: havia quadros, posters, placas, pratos, souvenirs, bonecos, livros e diversos artigos referentes ao amado cantor norte-americano. Uma peça de destaque era, certamente, uma grande bandeira igual àquela usada pelo exército sulista na Guerra de Secessão americana, mas com um belo detalhe: a foto de Elvis com chapéu de cowboy na estampa central. Havia também uma estante repleta de CDs, DVDs e objetos temáticos, assim como uma cristaleira toda decorada com itens enfocando Elvis nos anos 50, 60 e 70, ou seja, todas as suas fases de projeção.  Era uma Mini-Graceland situada em “Memphis, Cachambi*”. A casa, por vezes, chegava a reunir 40 pessoas em clima festivo e dançante, revivendo o fã-clube Rio Elvis Presley Society (REPS). Além do som original, nunca faltou o karaokê, onde os colegas tinham o privilégio de se sentir como Elvis naqueles momentos... Às vezes até o Rodrigo Cardoso aparecia e também participava da brincadeira. Os frequentadores mais empolgados dançavam, cantavam, conversavam e fotografavam em meio aos indispensáveis comes e bebes. Entre eles estava sempre a Vania que, esbanjando disposição, era disparada a dançarina mais energética do grupo. Horas de pura alegria! Havia vezes em que eu não queria parar de dançar. Voltava para casa com a sensação de que tinha feito um ótimo programa e pensava já nos próximos eventos.  Com o tempo, Regina mudou-se para longe, e assim ficou mais difícil para eu comparecer às festas...  

Com essa experiência e amizade com os fãs, naturalmente fui me interessando cada vez mais pelo universo Presleyano. Comprei vários produtos, cheguei a assistir a todos os 31 filmes do rei do rock e tive o prazer de ir à Mega exposição “Elvis Experience Brasil” (2012) em São Paulo com farto material do acervo de Graceland, a antiga residência de Elvis Presley em Memphis. Além disso, assisti, no Maracanãzinho, a dois shows espetaculares dos músicos que tocaram com Elvis, sendo uma delas a despedida oficial da banda em turnês internacionais. Realmente, estes momentos eram raros e eu não tinha ideia se ainda haveria mais eventos. Depois de algum tempo, percebi que, além de a banda original se ter despedido dos palcos estrangeiros, não havia nenhuma banda carioca para acompanhar, os encontros frequentes com os amigos diminuíam e parecia que essa era chegaria ao fim... Estaria tudo mesmo fazendo parte de um passado? Ficava a me indagar...

Mas, a vida me reservaria outras surpresas. Depois de um certo período de estiagem, voltei a me encontrar com os antigos colegas e ainda conheci novos (!). Com o incentivo da Alice Maia, outra notável fã, chegamos a nos rever algumas vezes e também a ir ao show do melhor cover de Elvis Presley que já vi: o inglês Ben Portsmouth. O cantor tinha uma voz maravilhosa, a semelhança física ajudava e sua performance era tão convincente que, em certos momentos, parecia que estávamos assistindo ao próprio Elvis. Além disso, tinha uma banda competente e excelentes backing vocals. Ben, inclusive, durante o show jogou echarpes e ursinhos de pelúcias para as mulheres, que os disputaram sem reservas. Nem preciso de dizer que Alice foi uma das contempladas com um ursinho, enquanto ele cantava “Teddy Bear” e eu não dispensei de levar uma echarpe comigo. Como me diverti! Não só eu, mas toda a plateia, e senti que a vibração dos shows tinha que continuar...

Ano passado também dancei alucinadamente no churrasco promovido por outra superfã, a Roberta Pontes, no playground de seu prédio. Foi uma farra para lá de boa com direito a DJ e tudo mais. Robertinha já teve até o privilégio de subir ao palco e dançar com o Ben e tirar muitas fotos ao seu lado! Cheguei a ir novamente a algumas festas da Regina e revivi o grande prazer de estar com ela e a turma da REPS. E Alice, sempre ela, descobriu a “Burning Love Band”, uma ótima banda aqui mesmo do Rio cujos músicos não tardaram a interagir com o nosso grupo de amigas. Desde a descoberta, eu os tinha visto só duas vezes, portanto, eu senti que estava devendo e tinha que remediar isso rapidamente. E em junho deste ano, fui a uma apresentação memorável do conjunto em Copacabana onde reunimos vários amigos, principalmente, amigas. A Sala Baden Powell tornou-se ainda cenário para reencontros históricos. Não é que eu encontrei a Marilena, colega dos tempos da Faculdade de Letras da UFRJ, acompanhando outras fãs do nosso circuito e ainda por cima tinha sido amicíssima da Beatriz, minha irmã de coração? As duas tinham sentido uma identificação imediata e recíproca quando trabalharam juntas e eu tinha perdido o contato com a Marilena por mais de 20 anos! Todo mundo se encontrou naquele mesmo dia, “ficou tudo em casa” e a animação teve início antes de o show começar...  O vocalista da banda, Maxwell Fernandes, comandou a vibração com “See See Rider”, “Burning Love”, “Jailhouse Rock”, “A Little Less Conversation” e o nosso grupo logo se levantou das cadeiras para dançar e a alegria foi contagiante. Outras mulheres da plateia aderiram e o clima foi tão bom que participamos ativamente do show inteiro. O Maxwell, inclusive, atendeu ao meu pedido e cantou “Kiss Me Quick”; mais tarde, interpretou “It’s Now or Never”, “Fever”, “Just Pretend”, “Suspicious Minds” entre outras e não poderia faltar a “Love Me Tender”. Fizemos um revezamento na hora em que ele jogou as echarpes vermelhas, brancas e azuis com o logotipo da BLB e o restante das fãs se alvoroçou tanto que não sobrou uma só echarpe disponível. A mulherada soltou muitos gritos de “lindo”, “gostoso” e “maravilhoso” para o Maxwell, se aproximou para ganhar beijinhos e o show tornou-se uma superfesta. Ao término da apresentação impecável, todo mundo queria tirar fotos, selfies com os músicos, sobretudo com o Maxwell. Nunca imaginei que ainda iria me divertir tanto no embalo das músicas de Elvis. Que bom que a alegria continua!

Elvis Presley foi mesmo um artista extraordinário! Além de bonito, atraente e carismático, tinha uma voz belíssima, cantava rock’n’roll, country, rhythm ‘n’ blues, gospel, pop, baladas românticas e outros ritmos, dançava, tocava e ainda representava. Para mim, foi um dos mais completos artistas de todos os tempos. Viveu apenas 42 anos (1935-1977), mas conseguiu vender incontáveis discos, virar astro em Hollywood, eletrizar as plateias e tornar-se inesquecível. E o mais impressionante é a influência que ainda exerce em milhões de pessoas no mundo inteiro. E justamente para relembrar Elvis Presley, espero que venham mais festas e eventos para eu poder prestigiar sua obra musical junto com a galera por tempo indeterminado...

 

*Obs: "Memphis, Cachambi" é um trocadilho com a música de autoria de Chuck Berry "Memphis, Tennessee" (1959) e gravada posteriormente por Elvis Presley.

 


             

 

                                                                                                                                                  


 

 

 



 

 

 

 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 13h46
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VIAGEM DE TREM DO MÉIER À CENTRAL E... VICE-VERSA

 

 trem


Ando de trem há anos e por mais rotineira que a viagem possa parecer, não me canso de observar o agitado cotidiano dos usuários. Todos aqueles trabalhadores das classes média e popular, ambulantes, benfeitores, pedintes, cantores, entre outros personagens, compõem um painel humano que realmente me fascina. E embora os tipos mais variados sempre circularam pelos vagões, os novos companheiros de viagem do Méier à Central do Brasil e da Central ao Méier continuam a surpreender-me.

Para começo de história, sempre gostei de andar de trem. Só de pensar que eu ia entrar numa condução que seguiria em uma só linha, ignorando o turbulento trânsito da cidade, já me dava a motivação necessária para embarcar. Olha que já peguei o trem em suas mais diversas fases, da extinta Rede Ferroviária Federal (R.F.F.S.A) até a atual era da administração privada da Supervia. Só que, felizmente, andar de trem hoje é uma atividade que exige bem menos sacrifícios do que no passado quando era comum ver passageiros pendurados em portas abertas, os “pingentes”, ou então  “surfistas ferroviários” no alto dos vagões fazendo malabarismos, arriscando a vida e sentindo-se heróis. E embora longe de ser ideal, o trem parador de hoje circula bem mais vazio, com intervalos regulares de 10 minutos em dias úteis (especialmente de manhã), equipado com ar-condicionado, painéis eletrônicos, vídeos informativos e assentos confortáveis. Não posso esquecer-me de mencionar os bancos preferenciais e o vagão reservado às mulheres durante os horários de pico. Quanta diferença! Entretanto, os usuários sempre trouxeram bom-humor às duras viagens. Ainda me lembro da primeira vez que peguei um trem recém-inaugurado nos anos 1990 que, para os padrões da época, era de fato mais bonito, limpo e moderno. Na hora da parada em uma estação, um rapaz colocou o rosto para fora da porta e gritou com todo o entusiasmo: “Aí, favelado: trem novo!” E todo mundo riu. Pareceu-me que não havia uma pessoa sequer naquele vagão que não estivesse com um semblante alegre e se sentindo um cidadão mais bem-tratado. Os tipos de passageiros, portanto, sempre foram um caso à parte.

Vejamos o caso dos ambulantes. Antes de o real ser adotado como moeda oficial no país, já me intrigava a incrível estratégia de comunicação que os vendedores usavam para realizar suas transações. Pois, o dinheiro brasileiro vivia mudando de nomenclatura e valor. Só eu - que não sou tão antiga assim - conheci o Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro novamente e Cruzeiro Real antes de junho de 1994. Lembro-me que, com os cortes nos zeros do nosso dinheiro devido às sucessivas desvalorizações, em 1989 algo que custava 50.000 cruzados passou a custar 50 cruzados novos e a confusão geral instalou-se até porque, as duas unidades foram aceitas durante a fase de transição e deram um nó na cabeça de todo mundo. Porém, não importando a moeda em vigor em qualquer época, os vendedores na cidade conseguiam se entender bem com a população em geral, pois há muito tempo já tinham adotado moeda própria: o “mil réis”, antigo múltiplo do “real” usado em nosso território na era da colonização portuguesa! O “mil réis” passou a ser o nome usado oficialmente no Brasil Imperial em 1833 e, pelo que eu vi, foi a moeda mais popular do país em todos os tempos. Lembro-me que certa vez, já em 1994, eu passava pelo Jardim do Méier e ouvi um senhor falando bem alto: “Fita isolante e durex é cem mil réis!” E a compradora pagou com uma nota de 100 cruzeiros reais e saiu com a mercadoria. E os ambulantes do trem não ficavam atrás na adoção desta unidade monetária... Segui para a estação de trem e logo ouvi lá dentro um jovem ambulante anunciar: “Caramelo é cem mil réis!” e mais adiante um outro: “Pastilha de hortelã é cem mil réis!” E um rapaz sem titubear pagou também 100 cruzeiros reais, dinheiro que circulava no país desde o ano anterior. Sei que era falar em “mil réis” que todo mundo acertava fazer a conversão automática. E assim os ambulantes ferroviários fizeram seus negócios com os usuários dos mais diversos níveis de escolaridade, faixas etárias e resistiram a todos planos econômicos antes de a moeda ser novamente o Real e substituir o “mil réis” na popularidade. Sinal que o povo sempre gostou mesmo do nome das moedas do tempo do Império...

Atualmente, pego o trem na estação do Méier para ir ao trabalho de segunda à sexta-feira. A rotina diária é entrar e procurar um assento em que posso passar a minha viagem em companhia de uma boa leitura que sempre levo comigo. Isso tentando ignorar os anúncios dos vendedores e conversas ao meu redor ao vivo e pelos celulares. Volta e meia aparece alguma personalidade mais eloquente ou exótica tentando anunciar-se com algum diferencial.

E quando eu pensava que eu já tinha visto de tudo no trem, do ano passado para cá apareceram ainda novos tipos. Os artistas se proliferaram. Se antigamente, o máximo que havia era algum grupo tocando samba ou pagode por diversão, ou ainda pessoas cantando música evangélica, agora é cantor de Rap, MPB, música Pop em inglês, ou melhor, uma língua alternativa inspirada no inglês, e até dançarinos de Hip-Hop, tudo para arrecadar alguns trocados... É claro que não é sempre, mais já houve dia que a minha volta do trabalho foi uma festa... Um dos “artistas ferroviários” de quem mais gostei foi o Juvenal, que se autointitulou "O Stevie Wonder do Trem". Era um negro alto, sorridente, na casa dos 60 anos, usando óculos escuros, camisa da seleção brasileira, capa verde e peruca loura carnavalesca toda cacheada e empunhando um violão, ou seja, uma “figuraça” que era uma simpatia só. Cantou, contou histórias, e tocou um repertório do Pop Internacional que, pelo que me lembro, passava por nomes famosos como Paul McCartney, Elton John, Bob Marley e, é claro, Stevie Wonder. Ele se prontificou a cantar “I’ve Just Called to Say I Love You” e foi uma graça! Alegrou como ninguém o nosso vagão. Ganhou cumprimentos, tiraram-lhe fotos e foi o centro das atenções da viagem. Além de ter descontraído  a todos, provavelmente arrecadou bem naquele dia. Dá-lhe Juvenal!

E os vendedores? Cada vez mais criativos. Quem pega o trem na Estação Central do Brasil sabe muito bem que, nos horários depois das 18h, quando se abrem as portas do trem há a famosa correria, muitas vezes com empurra-empurra na disputa pelos lugares do vagão. A seguir, entram os ambulantes. Outro dia, quando houve atrasos nos trens,  entrei no vagão feminino superlotado e, logo após, chegou uma senhora que deu um grito tão estridente que assustou a todas, mais ou menos assim: OOOOOOOOOOOOOOOOOOh!  E alguém falou: “Que é isso? Tá doida?” E ela, com seu vozeirão, foi anunciando que vendia aparelhos de massagem e se apresentou como “Negona do Trem”. Ela falava sem parar e mesmo com pouquíssimo espaço disponível conseguiu a façanha de locomover-se entre as usuárias aplicando o massageador nos ombros e costas de quem pôde. E quando via algum homem tentando entrar no vagão, gritava em alto e bom som: “É FE-MI-NI-NOOOOOO!!!!!!” E botava os homens para correr enquanto arrancava risos das mulheres. Uma passageira, vendo o método ser mais do que eficaz, falou a ela: “Pôxa, você tá melhor que os seguranças, hein? Acho que deviam lhe contratar...” E a vendedora respondeu sem modéstia: “É sim, nem sei porque a Supervia não me contratou ainda.” E para coroar a viagem, ela viu uma jovem grávida com uns 8 ou 9 meses de gravidez viajando em pé diante do banco preferencial e ninguém ali se manifestava. Então a ambulante deu conhecimento a todas sobre a situação e pediu que alguém cedesse o lugar à futura mãe. Os comentários indignados começaram a circular e uma jovem que sentava no banco preferencial resolveu levantar-se. Se a vendedora antes tinha chegado a incomodar com tanto falatório, depois dessa ela arrasou. E vendeu como ninguém. Só ouvi elogios sobre o massageador e um monte de usuárias comprando. O aparelho custava R$ 15,00, e a ela dizia: “Hoje só tem freguesa abençoada neste trem. Todo mundo só me dá nota de R$ 50,00. Quem troca para mim?” E ela arrumou troca para todas as notas. Saltei no Méier impressionada, pois ela não parava de vender. Foi uma das mais bem-sucedidas ambulantes que já vi em toda a minha vida. Acho que até eu vou comprar um massageador daqueles se eu encontrar essa vendedora "sui generis" em outra ocasião.

Enfim, no trem as novidades não param. Independente da época ou a situação econômica, o trem é cenário vivo de modismos, costumes e revelações onde a  criatividade do povo sempre encontra espaço, não importando o quão cheio esteja o vagão... E parodiando a música do falecido Tim Maia “Do Leme ao Pontal”, eu afirmo que a viagem de trem “do Méier à Central, não há nada igual...” e vice-versa também.

 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 23h10
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UM TOUR PELO NOVO MARACANÃ

 


Maracanã 

 

Se há uma coisa que realmente gosto de fazer é, de vez em quando, dar uma de turista aqui no Rio de Janeiro. Ir a um local que nunca fui e ter aquela badalada sensação de explorar o inexplorado, ainda que só eu não o tenha feito...  Também é um prazer poder passear em alguns pontos de destaque na cidade que há anos não visito e que me deixaram boas lembranças. Recentemente, tive a oportunidade de experimentar um pouco das duas sensações ao fazer uma visita guiada no que chamam agora de “Novo Maracanã”. Uma jornada num Rio cada vez mais intrigante...

Nos últimos dias de 2015, eu já havia decidido provar do gostinho de exercitar o meu turismo caseiro e fui a uma exposição fotográfica no Instituto Moreira Salles, na Gávea, “Rio: Primeiras Poses”, com 450 fotos em homenagem aos 450 anos da cidade, enfocando o período de 1840-1930. As fotos eram antigas, mas a exposição contou com todos os recursos técnicos da modernidade como vídeos, projeções computadorizadas e imagens em 3D. Tudo isso podia ser apreciado em meio ao cenário bucólico do IMS, que conta com o verde da natureza, a presença dos pássaros, as águas de um córrego e até área projetada pelo paisagista Burle Marx. O ambiente não poderia ter sido mais adequado para uma exposição tão expressiva. Portanto, nesse embalo de turista carioca, resolvi passar da nostalgia do Rio Antigo à vibração do Rio Contemporâneo. Para começar bem 2016, fui ver como ficou o Maracanã após a reforma feita para a Copa do Mundo de 2014, atendendo aos padrões internacionais da FIFA. Portanto, depois de multidões já terem entrado no estádio desde então, chegou a minha vez de calmamente conhecer a sua nova versão.

Fui de trem com meu irmão que topou o passeio e, logo ao saltar na estação, já senti o clima presente do futebol. Pintaram numa das paredes um grande painel com  jogadores em várias cores, correndo, chutando, matando a bola no peito, dando bicicleta, entre outros movimentos. E ao sair da estação, pude contemplar uma vista magnífica do Maracanã, que mais tarde seria devidamente registrada pela minha câmera. A seguir, andei pela rampa que dá acesso ao estádio, sob o sol escaldante do verão carioca, doida para chegar logo.

Lá dentro, já num clima bem mais agradável, com potentes ventiladores por todos os lados, encontrei turistas do Brasil e de outros países, sobretudo da América Latina. O guia da nossa visita se apresentou e passou a falar em português, depois em inglês – faltou o espanhol - e conduziu o grupo para conhecer coisas que eu nem imaginava que havia por lá. Havia, por exemplo, fotos e a cadeira especial onde o Papa São João Paulo II ficou durante a missa que celebrou no estádio em 1980, assim como as duas cadeiras onde se sentaram a Rainha Elizabeth e o Príncipe Phillip durante uma partida em 1968. E o restante, é claro, futebol e mais futebol. Havia lembranças da última Copa como o boneco do tatu-bola Fuleco em tamanho gigante, uma grande foto da seleção alemã comemorando o título de 2014, posicionada atrás de duas redomas de vidro: uma com a bola da final entre a Alemanha e Argentina e a outra com 7 miniaturas da taça da Copa, simbolizando cada jogo disputado pela campeã. Podiam-se admirar também uma foto do Neymar durante a partida final que o Brasil ganhou da Espanha na Copa das Confederações (2013) ao lado das camisas oficiais de ambas equipes, a rede e a bola do gol nº 1000 de Pelé, uma estátua do Zico, o maior jogador da história do meu amado Flamengo, as marcas dos pés do artilheiro Roberto Dinamite, selecionadas de um Calçadão da Fama, um busto e grande foto do Garrincha, uma bela maquete do estádio e mais fotos de lances em jogos memoráveis e de craques da história do Maracanã. Entre as novidades para este ano, criaram o "Chute a Gol", onde se simula virtualmente a cobrança de pênaltis, e a "Twist Cam", que tira fotos em 360°. Estes foram alguns exemplos do que vi por lá, entretanto, não havia tanto material quanto eu esperava. O nosso guia falou sobre os itens num total de 15 minutos e nos deixou à vontade para conhecermos as dependências do estádio. Foi uma pena que neste ano alteraram o roteiro do tour e suprimiram o acesso à Tribuna de Honra, Cabines de Imprensa e a seção Maracanã Mais. Considero que foi uma grande  perda para o visitante... O Maracanã pode até não ser mais o maior estádio do mundo, contudo ainda é o de maior importância. Afinal, é o único no mundo a ter sido palco de duas finais de Copa do Mundo, sediado jogos de todas as grandes seleções e recebido um sem-número de craques nacionais e internacionais, de Pelé a Messi, além de astros da música. Seria ótimo que houvesse mais acesso ao estádio como um todo e mais ênfase na sua história. Na loja oficial, havia mais produtos dos clubes do Rio do que souvenirs do Maracanã, pois a única réplica à venda era muito cara e nada atraente na minha opinião. Sinceramente, o templo maior do futebol merecia mais...

No entanto, havia a parte compensatória. Amei ter passado pelos vestiários e ver uma série de armários com as camisas dos jogadores da última Copa. Havia, por exemplo, os uniformes com os nomes de Götze, o autor do gol que deu o título à Alemanha, Hummels, Neuer, David Luiz e até de Messi e Neymar, os dois mais disputados para os clicks das câmeras, chegando a se formar filas de torcedores esperando por sua vez de posar ao lado das camisas. Dali, passei direto pelo mesmo lugar por onde passam os times para entrar em campo. Realmente é uma sensação e tanto ficar junto ao gramado e contemplar toda aquela obra arquitetônica ao redor. Pude constatar a beleza que ficou o Maracanã, totalmente remodelado, reduzido na sua capacidade, porém mais acolhedor, com nova iluminação, três moderníssimos placares eletrônicos, cadeiras azuis e amarelas para os torcedores e vários acessos a passagens para outras áreas do estádio como os banheiros. Sem dúvida, o conforto hoje é muito maior do que na minha época de adolescente, em que cheguei a sentar na dura pedra das arquibancadas e mesmo levando almofadinha, saí de lá com o traseiro doendo... E como conseguir passar por uma multidão de homens irrequietos, vibrando, amontoados pelos degraus para ir a um banheiro feminino era missão quase impossível, nem me atrevia. Certamente, eu me perderia na volta. Mas, como fui poucas vezes assistir a jogos, não tive maiores problemas. Pior era para aqueles que ficavam na geral em volta do campo. Assistiam ao jogo em pé e, por vezes, ainda recebiam como "bônus" líquidos e objetos arremessados por outros torcedores. Não era mole não...  Constatei que o fim da geral e da arquibancada foram mesmo mudanças muito positivas. No dia da visita guiada, eu me empolguei: testei as cadeiras, sentei no banco de reservas, pisei na beira do gramado, passeei entre as instalações e fiquei a admirar todo o estádio. E ainda recordei-me de alguns momentos marcantes para mim.

Lembrei-me que a última vez que eu entrara no Maracanã foi um dia de Flamengo e Vasco, no início da década de 90, numa época em que as torcidas subiam as rampas juntas para se separarem depois. Sem brigas. Há mais de vinte anos isto era realidade! Pois é... Lá vibrei com a vitória sensacional do Flamengo. Aliás, sempre dei sorte contra o Vasco até assistindo pela televisão e as duas únicas vezes que prestigiei o clássico dos milhões ao vivo deu Flamengo. Uma vez foi 4 x 2 na era Zico e 2 x 1 no último jogo que fui. Uma felicidade! Desde aquela época, eu me comovia ao ver pela TV, em certos jogos, praticamente toda a circunferência do estádio lotada de torcedores com as cores e bandeiras do Flamengo. Uma grande emoção... Fiquei a imaginar também que agora o público poderia ter uma visibilidade melhor dos shows já que o estádio estava menor. E pensar que o Maracanã também foi palco para Frank Sinatra, Paul McCartney, Tina Turner, The Police, A-Ha, entre outros... Que espetáculos!

Voltando à visita, ainda interagi com alguns turistas, tirei fotos para uma família do Panamá e vi um grupo numeroso de belos rapazes, a maioria usando um mesmo uniforme. Pensei, “devem ser espanhóis”. A minha curiosidade então suplantou minha timidez e decidi perguntar a um deles de onde vinham. Para minha surpresa, ele respondeu que eram da Argentina. Nem imaginava que tantos jovens da nossa arquirrival no futebol se interessariam em participar de uma visita assim. Depois, fui conhecer a sala de imprensa onde os técnicos e jogadores dão suas entrevistas coletivas. Tirei fotos dos vestiários, passei para área dos lanches, vi mais e mais turistas chegarem e senti a aura positiva do Maracanã que atrai gente de todas as idades e culturas. E lá estava eu também, feliz de ver que a obra valeu a pena. Mas percebi que ainda há muito o que ser feito nas áreas do entorno, como por exemplo, a reestruturação do Estádio Célio de Barros. Mas isso já é outra história... O importante é que visitei mais um local histórico do Rio, agora revestido com que há de mais moderno. E quem passa na frente da Torre de Vidro do Maracanã, pode apreciar a série de palmeiras plantadas durante a reforma que deixa a paisagem ainda mais bonita à noite com o estádio iluminado.  

Já estou a imaginar qual será o meu novo roteiro. Há tantas opções no Rio que é até difícil de elencar. Há parques, ilhas, museus, casas de show, áreas esportivas e uma série de sugestões que estou colocando como prioridades para passeios em 2016. Já vi que vou precisar de muito tempo para me organizar. Com certeza, não vou deixar de conferir os cenários tradicionais assim como as transformações urbanísticas e paisagísticas da cidade. Que o meu Rio de Janeiro me aguarde... sem prazo, sem hora e sem compromisso. Mas, sempre com muita disposição...



Escrito por Debbie Fontaine às 12h28
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É UM PÁSSARO? É UM AVIÃO? NÃO... É A SUPERGIRL!



SUPERGIRL 

 

Após afirmar sucessivas vezes que eu nunca mais assistiria a um seriado de TV, alegando que nada mais me interessaria depois das 8 temporadas de “Desperate Housewives” e que a maioria das produções atuais era de baixa qualidade, tive de dobrar a língua. Rendi-me logo a duas séries: a “Call The Midwife”, produção inglesa sobre a atividade de enfermeiras/parteiras na área pobre de Londres dos anos 50/60 e agora a novíssima série americana “Supergirl” que destacarei neste texto. O canal Warner busca como fonte o universo dos quadrinhos da DC Comics e traz pela primeira vez à telinha a Supergirl como protagonista. A personagem é dinâmica, corajosa e inteligente, bastante conhecida dos fãs do Superman. Como sempre gostei de histórias com protagonistas femininas, não consigo mais parar de acompanhar essas superaventuras...

Nunca fui de apreciar super-heróis, mas quando vi pela primeira vez o Christopher Reeve com aquela roupa de Superman... comecei a abrir exceção. Inicialmente, interessei-me em assistir aos filmes do herói de Krypton para admirar a beleza do ator, depois passei a gostar do personagem de verdade. Como ainda era criança, só pude conferir os quatros filmes da saga alguns anos mais tarde. Apaixonei-me pela história de “Superman – O Filme” (1978) e então acompanhei fiel até à última sequência com o Christopher, “Superman IV - Em Busca da Paz” (1987). Na década de 1990, tornei-me ainda fã da série de TV “Lois  & Clark – As Novas Aventuras do Superman” (1993-1997) com  Teri Hatcher  e Dean Cain. A partir daí, passei a ver mais produções de cinema, TV, animação e li muitos quadrinhos históricos que enfocavam meu super-herói predileto. Numa dessas edições, descobri a Supergirl e vibrei ao ler as tiras da prima do Homem de Aço. Ela foi a primeira “menina superpoderosa” que conheci e, portanto, vejo-a como a única verdadeira. E em 2015, recebi com  surpresa e curiosidade a notícia de que, finalmente, os Estados Unidos lançariam uma série televisiva sobre a Supergirl. Tendo em vista que a personagem foi criada em 1959, já não era sem tempo... 

O seriado conta com a bela Melissa Benoist no papel principal e traz histórias modernas com aventura, ação, drama e romance. Como era de se esperar, fizeram diversas mudanças na origem da personagem em relação aos quadrinhos das décadas de 1950-1960. Nas antigas HQs, por exemplo, a Supergirl chegou à Terra em um foguete já usando o uniforme  com o “S” feito por sua mãe em Krypton. Quando a jovem foi encontrada pelo Superman, a princípio foi levada por ele para morar em um orfanato com o nome de Linda Lee e depois foi adotada como filha única pelo casal Danvers. Linda ainda usava uma peruca com tranças de cor escura para disfarçar seu cabelo louro. E por várias edições da revista, ela passou a fazer um “estágio” secreto com o Superman usando seus superpoderes. Só então ela foi apresentada ao mundo como heroína pelo primo famoso. No seriado, Supergirl encontrou o Homem de Aço nas mesmas circunstâncias, só que ele a conduziu para morar direto com os Danvers. Lá a Supergirl ganhou uma irmã mais velha, passou a usar o seu nome kryptoniano Kara mais o sobrenome Danvers e conservou sua cor de cabelo louro natural. Depois de anos, ela resolveu entrar em ação por si própria e, então, elaborou o uniforme. E tudo isso aconteceu no 1º episódio acompanhando o ritmo frenético do século XXI.

Apesar das diferenças, o seriado não deixa de fazer inúmeras referências aos quadrinhos originais do Superman. A protagonista mantém o mesmo jeito tímido e atrapalhado do primo, além de usar a mesma tática de disfarce: apenas óculos e um penteado diferente quando está vivendo sua identidade terráquea de Kara Danvers.  O fotógrafo Jimmy Olsen, amigo de Clark Kent, participa da nova série despertando interesse amoroso na Supergirl...  Mas agora é interpretado por um negro (Mehcad Brooks), alto e forte, estilo galã, bem diferente do ruivo, sardento e franzino das histórias tradicionais. Lucy Lane, irmã de Lois, e o próprio Superman (ainda que só pela silhueta) já compareceram na série, sem contar que Cat Grant (Calista Flockheart), a chefe da Supergirl numa megaempresa de mídia, foi assistente de Perry White no jornal Daily Planet, onde trabalham Clark, Lois e de onde veio também o Jimmy. E um grande acerto da produção foi ter incluído Helen Slater, que estrelou “Supergirl” (1984) no cinema e Dean Cain, o Superman de “Lois & Clark” ..., como os pais adotivos de Kara. Tenho certeza de que outros fãs como eu aprovaram a escolha. Há também os vilões que figuram nas HQs. Alguns deles detêm forças e poderes surpreendentes como Vartox, Reactor e Livewire. Aliás, um ponto alto do seriado é justamente o grau de dificuldade que os vilões têm imposto à Supergirl nos confrontos diretos, obrigando-a despender muito mais energia do que o Superman no seriado dos anos 90. Porém, talvez um dos adversários mais perigosos seja quem usa só o intelecto: o charmoso, sedutor e poderoso empresário da área tecnológica Maxwell Lord (Peter Facinelli), que será - ao que tudo indica - o Lex Luthor na vida da Supergirl.  

 Outro ponto positivo é o drama pessoal enfrentado pela heroína na busca de aprender a lidar com os seus superpoderes, emoções e a própria identidade. E ela ainda enfrenta o desafio de ter de conciliar vida sentimental, familiar e profissional como toda mulher moderna. Por isso, é cativante acompanhar o lado humano da Supergirl através da sólida amizade com a irmã mais velha, Alex Danvers (Chyler Leigh), das questões afetivas que se desenvolvem, por enquanto,  em torno de Jimmy e do colega de trabalho Winn (Jeremy Jordan), além da divisão profissional por ter que, como Supergirl,  ajudar a irmã na agência DOE que combate alienígenas e, como Kara, assessorar Cat Grant na empresa Catco. Se na DOE, ela tem que aturar o chefão Hank Henshaw (David Harewood), um alienígena disfarçado que no início desconfia e desdenha da eficiência da Supergirl, na Catco, por sua vez, tem que exercitar a paciência, quase ao infinito, com a Sra. Grant, que na categoria ambição e comentários mordazes também é super... Não há como não se solidarizar ao ver que até uma super-heroína passa por conflitos internos, enfrenta uma dupla jornada de trabalho e sofre muito stress como qualquer mortal... 

A série também tem falhas; é lógico. Há, por exemplo, um ponto a questionar que é recorrente em quase todas as produções americanas: os personagens parecem indestrutíveis. E não são somente os super-heróis. As mulheres, nos filmes em geral, costumam a lutar de igual para igual com os homens, geralmente vencem, e após sofrer muita violência, saem todas maravilhosas, sem qualquer hematoma, dor ou arranhão... Em "Supergirl", não há exceção. Foi o que vi no 6º episódio na luta que Alex travou com um cientista. Será que só eu que depois de bater numa quina de mesa fico com a área da perna dolorida e toda roxa? De qualquer modo, o roteiro dos episódios da série, o elenco consistente e a qualidade da adaptação dos quadrinhos para a tela, com o uso de ótimos efeitos especiais, supera estas fantasias modernas.

Cheguei a esta conclusão: agora não tem mais jeito e o seriado me pegou mesmo... Sei que o público-alvo da “Supergirl” é de adolescentes e jovens, mas não quero nem saber... Toda quarta-feira, 22:30h, fico de olho na Warner aguardando por mais um episódio. Ao mesmo tempo procuro ler apenas o essencial sobre o seriado para evitar os “spoilers”. Pelo menos, estou a par que o filme-piloto, exibido pela CBS em outubro de 2015, foi a 2ª maior audiência daquela noite na TV americana, com mais de 12 milhões de espectadores. Agora essa é a série mais vista entre as produções baseadas em HQs nos EUA e a 1ª temporada contará com 20 episódios para extasiar os fãs e deixá-los superligados. Depois dessa, acho que só continuo a afirmar que nunca mais volto a ver novela. Quanto à “Supergirl”, torço que seus voos atinjam níveis estratosféricos de audiência para que eu possa sentir-me também nas nuvens com suas aventuras.  Fico também na torcida que a equipe de produção da série continue a acertar a mão ao adaptar a antiga personagem, assim como os demais, à realidade moderna. E se agora algum saudosista perguntar: “É um pássaro? É um avião? Responda: Não, desta vez é a Supergirl.” 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 15h49
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AMIZADE: SENTIMENTO ETERNO PARA INSPIRAÇÃO



AMIZADE

 

 

Outro dia, eu comecei a ler os posts no Feed de Notícias do Facebook e me deparei com várias frases que falavam de amizade e um pensamento em particular me chamou a atenção: “Dizem que amigos verdadeiros ficam longos períodos sem se falar e nunca questionam a amizade. Repassem se você tem pelo menos um desses amigos.” A partir daí, o assunto não me saiu mais da cabeça. Resolvi, então, pesquisar pela Internet e descobri que o pensamento foi adaptado do colunista Vargas Tellado. Ainda encontrei inúmeras frases sobre o tema tais como “A amizade é um amor que nunca morre” (Mário Quintana) ou “A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas” (Francis Bacon),  e apesar da qualidade do conteúdo apresentado por estes e outros poetas e filósofos, uma das frases de que mais gostei desconheço a autoria: “A parceria é forte, a curtição é louca e a amizade é eterna.” Pensamento direto, original e bem ao estilo do século XXI. E me pus a pensar sobre a veracidade dessas afirmações e no papel de destaque que a amizade sempre teve em toda a minha vida.

Comecei a refletir... afinal, as pessoas continuam a acreditar em amigos verdadeiros, mesmo distantes, sem questionar o relacionamento? A responsável pela postagem da frase que me inspirou a redigir este texto chama-se Cláudia, uma grande amiga de quem havia perdido o contato por anos e que só consegui achá-la através de outra Cláudia, que me informou o número do telefone da sua xará pelo Facebook, que agora mora em Resende/RJ. Cláudia para cá e Cláudia para lá, resolvi ligar então para a minha antiga amiga e conseguimos nos falar outra vez depois de uns 20 anos! Foi cerca de uma hora e meia de conversa em plena sintonia tal qual na época em que sentávamos lado a lado na sala de aula. Após uma experiência dessas, a gente sente que amizade à distância é também amizade e as redes sociais ajudam sim a (re)aproximar as pessoas, embora muitos detratores só as acusem de reforçar o isolamento. Pois agora eu e Cláudia somos amigas virtuais, estamos sempre conectadas, curtindo a página uma da outra e nem por isso nossa amizade deixa de ser real. Pude constatar, assim, o fato mais importante: a conexão da nossa afinidade, na verdade, nunca se perdeu.

  O mesmo posso afirmar da minha querida prima Margareth, que conheço desde criança e de quem tenho sempre belas recordações, inclusive, do tempo em que brincávamos juntas de “batatinha-frita 1-2-3”. Já nos tempos da adolescência, ficávamos longo tempo conversando em frente ao meu prédio, no portão da casa dela ou circulando pelas ruas do seu bairro, trocando confidências e rindo na mais intensa descontração. Podíamos passar horas no bate-papo e não faltava assunto diante do repertório quase inesgotável de estripulias da Margô... Eu sempre ansiava por ouvir aquelas histórias em que a vida parecia oferecer um extenso cardápio de novidades como só ela sabia experimentar. Hoje em dia, nós nos vemos pouco, mas sempre trocamos figurinhas, ou melhor, fotos, vídeos, comentários pela Internet ou WhatsApp e toda vez que nos encontramos parece que acabamos de nos ver. A conversa e as risadas fluem no mesmo ritmo dos tempos das “confissões de adolescente” e só param na hora da volta para casa. Eu a vejo como a mesma garota extrovertida, contadora de histórias e com jeito dengoso que conheci na infância. O elo da nossa amizade me parece incontestável. Os anos passam, a realidade se transforma, o sentimento permanece...

Em “Faculdade de Letras: Reencontros e Releituras”*, já comentei do grande prazer que tive em 2014 ao rever vários colegas da minha turma de universidade e como nos reaproximamos, sobretudo, devido ao Facebook. Destaco também a Lígia, amiga dedicada, mulher cristã de muito amor a Deus, que conheço desde os tempos em que eu lecionava inglês. Há anos ela mora nos Estados Unidos e assim como os escritores do passado que se correspondiam através de cartas, ou melhor, de epístolas, presumo que nós duas nos comunicamos através do computador desde que inventaram o e-mail. Só lamento a distância geográfica que torna nossos contatos mais esparsos do que deveriam ser. Entretanto, para resumir o meu pensamento, coloco aqui outra frase da linha popular que encontrei na busca do Google: “A verdadeira amizade é aquela que o vento não leva e a distância não separa.” Aprovado e comprovado com selo de garantia ISO 9000.

Sempre considerei a amizade um dos sentimentos mais sublimes, porque também é uma forma de amor. E para mim, amor de verdade nunca morre. Aí, recordo-me das palavras do poeta Quintana. Mas, o surpreendente da vida é saber que nós podemos desenvolver um relacionamento sólido que instiga e inspira a filosofia, a arte e a vida. Na verdade, toda amizade nos arrebata quando menos nos damos conta. Uma prova disso foi o que aconteceu com as irmãs Armendarizes (pronúncia: Armendárizes). Conheci primeiro a Martha, ou Marthinha, como costumo chamá-la, em 1999: uma mulher dinâmica, determinada e perspicaz, sempre em busca do cumprimento de suas metas no campo pessoal e profissional. Dizia que era devido ao seu sangue basco... Tinha uma personalidade muito diferente da minha, porém simpatizei com ela de imediato. Começamos a conversar no trabalho e Martha passou a me dar dicas ótimas. E, daquela época para cá, já compartilhamos um mundo de histórias, segredos, decepções, alegrias, ideias, passeios, festas, viagens, projetos e não sei nem mais onde essa lista vai parar... O seu perfil encaixa-se no pensamento de Francis Bacon porque ela sempre me mostrou a necessidade de duplicar as alegrias e dividir as tristezas. E através dela, conheci o restante da sua família, por quem passei a ter uma grande afeição. Mas a Marthinha, como as minhas amigas em geral, mudou-se para bem longe... Neste caso, voltou para Lorena/SP, a sua cidade natal. Embora nós nunca deixamos de manter o contato, não havia como nos falarmos com frequência. Compreendi que era muito difícil ter alguém sempre ao meu alcance; aquela amizade de todas as horas, como se costuma dizer.

Nesse período, aproximei-me de uma de suas irmãs em especial, a Beatriz, mulher sorridente, sensível e confiável. Já a conhecia, só que a partir de então, o sentimento de amizade foi aumentando e a sua companhia passou a fazer parte integrante da minha agenda. Daí, passamos a participar de passeios culturais, conversas pelo calçadão de Copacabana, chopps à beira-mar (mesmo que quase sempre só eu que beba...), banhos de praia, shows animados, eventos festivos, folias de Carnaval ou simples visitas para pôr o papo em dia. Mas, o que solidifica a amizade mesmo são a afinidade, a admiração, o carinho e o respeito mútuo. Para nós, nada disso faltou e acredito ainda que nem faltará. Há quem duvide da existência da amizade entre mulheres e eu afirmo que elas não só existem, mas proporcionam uma experiência sem par em termos de riqueza emocional. Por isso prezo muito as minhas amizades femininas. Em muitos casos, tenho a sensação que uma sabe o que a outra sente e nem ao menos é preciso falar. Para expressar melhor esta ideia, recorro agora a outra frase moderninha: “A amizade de verdade é quando você vai na casa da pessoa e o wi-fi já conecta automaticamente.” Preciso dizer mais alguma coisa? Amo estas sacadas geniais.

Eu destaquei estas, mas ressalto que meus pais e meu irmão são também amigos demais! Um privilégio para mim. Considero ainda muito as amizades que tenho feito ao longo da vida pelos ambientes por onde passei. Já conheci muita gente boa através da minha igreja, do trabalho, da faculdade, assim como de cursos, eventos e por aí vai... Citei aqui algumas pessoas por serem amizades antigas e que passaram a ser constantes. Seria uma tarefa impossível citar todos os nomes porque cada amigo ocupa um lugar especial em mim. Muitas pessoas podem ser ou ter sido meros conhecidos ou companhias do tipo “bom enquanto durou”. Porém, quem é amigo de verdade sabe que está incluído na minha lista... Concordo que companhia de curtição pode ser louca, mas amizade é eterna...

Portanto, deixando de lado as frases da minha pesquisa, volto a uma que me tem inspirado a vida toda: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro*.” E eu o descobri, pois sempre o procurei. Hoje, tenho Jesus como meu melhor amigo, que tem me dado a graça divina de consolidar as amizades presentes e resgatar outras antigas. Também não descarto a possibilidade de haver futuras para inserir neste querido rol. O segredo de tudo é saber conquistar o outro e preservar quem foi conquistado. Tarefa dificílima, mas tão recompensadora que não desisto de investir nesta arte. Porque quando ganhamos a confiança do outro através do olhar, da palavra, da atitude e somos correspondidos a ponto de fazer parte de sua vida por anos a fio é absolutamente gratificante. A verdadeira amizade prioriza o prazer de conhecer o outro, de ouvir suas histórias e compartilhar de seus momentos sejam bons ou difíceis. Quem vive este sentimento já conhece, de fato, uma das faces do amor. Um tipo de amor onde o espaço é infinito e por isso surpreende, sensibiliza e nos faz, acima de tudo, evoluir sempre um pouco mais...

 

 

 

 

 

 *Obs1.: Este texto foi publicado neste blog em 25/01/2015 : http://debora.fontenelle.zip.net/arch2015-01-25_2015-01-31.html.


* Obs2.: Livro do Eclesiástico, capítulo 6, versículo 14.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 13h08
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FRANK SINATRA: 100 ANOS COM MÚSICA E ARTE 


frank-sinatra

 

 

              Já andava nostálgica em termos musicais nos últimos tempos. E agora tenho mais 100 motivos para continuar assim... Tudo porque, neste ano, o mundo celebra o centenário de nascimento de um dos maiores artistas da música e do cinema do século XX e também de todos os tempos: o meu querido Frank Sinatra (1915-1998). E o Rio de Janeiro, claro, não poderia ficar de fora do roteiro mundial de comemorações. Entre os eventos mais badalados, houve recentemente um musical, “100 Anos de Frank Sinatra”, os shows “Bibi Ferreira e Orquestra Canta Repertório Sinatra”, “Salute to Sinatra - Louis Hoover & The Hollywood Orchestra” e a exposição “Frank Sinatra - A Voz no Cinema”. E diante da série de homenagens, animei-me a participar do que pude e recordar o quanto as canções e os filmes de Frank fizeram e ainda fazem parte da minha vida.

            A primeira vez que tive contato direto com sua música, foi através do antológico show de 1980 que lotou o Maracanã, com mais de 170 mil pessoas, encantando o público carioca. Assisti ao especial exibido pela TV Globo e, embora eu fosse criança ainda, lembro-me de ter gostado muito. Mas a paixão mesmo veio  muito depois, no início dos anos 1990, quando eu estava em uma confraternização entre minhas colegas de trabalho. Como boas professoras de inglês, apreciávamos a música bem cantada naquele idioma e a certo ponto, a anfitriã disse que tocaria dois CDs dos seus cantores prediletos: Nat King Cole e Frank Sinatra. Depois que acabei de ouvi-los, meus ouvidos agradeceram e a partir daquele dia o meu gosto musical estaria mudado para sempre. Passei dias com as músicas dos dois na cabeça e corri para as lojas para adquirir os CDs iguaizinhos aos da minha colega. Felizmente, encontrei o “New York, New York - Frank Sinatra - His Greatest Hits” e a coletânea do Nat. Mas, quando eu ouvia o Frank não me dava vontade mais de parar de conhecê-lo. Assim, toda vez eu que avistava as Lojas Americanas, a Gabriella Discos ou qualquer uma do gênero, entrava em busca de CDs dele e, deste modo, a minha coleção começou a tomar uma proporção além das minhas previsões. Por consequência, tive que adaptar minhas prateleiras àquela nova realidade.

            Fascinavam-me aquelas canções românticas, no ritmo do jazz, blues, pop e até bossa nova, com toda aquela classe e swing de interpretação que só o Frank tinha e ninguém mais. Ouvindo sua voz maravilhosa e pronúncia perfeita, eu me perdia naquelas melodias e letras que falavam de romance com imagens poéticas como “fonte de desejos,” “jardim na chuva”, “lírios na primavera,” “outono em Nova York”, “abril em Paris.” E a jovem Débora não parava de sonhar... As canções me absorviam e eu imaginava o enredo daqueles encontros amorosos em cada cenário onde a beleza e o lirismo predominavam. E independente do enredo enfocar uma história triste ou feliz, tudo parecia mais belo e com mais sentimento ao som de “The Voice” (“A Voz”).

            Com o tempo, vim a saber que ao longo de sua carreira, Sinatra gravou excelentes compositores da música americana como Cole Porter, Irving Berlin, Kern, Cahn, Vahn Heusen, Rodgers, Hart, Hammerstein, Gershwin e até de outros países como o nosso grande Antônio Carlos Jobim. Gravou com orquestras do porte de Harry James, Tommy Dorsey, Count Basie, Don Costa, entre outras, lembrando que muitos de seus hits contaram com os arranjos do famoso maestro Nelson Riddle. Isso é que é currículo! E o que dizer dos duetos fantásticos, com Elvis Presley, Ella Fitzgerald, Bing Crosby, Dean Martin, o já citado Tom Jobim? Olha, que isso é apenas um pequeno resumo... Houve até o Duets (1993), o primeiro álbum na História com duetos gravados inteiramente em estúdios separados e depois reunidos por montagem eletrônica. O CD alcançou a marca de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos e chegou ao 2º lugar no Hit Parade. E no ano seguinte, Sinatra lançou o “Duets II”, e só nos EUA chegou a 1 milhão de CDs vendidos. Tudo isso eu acompanhava com o maior interesse e satisfação sem imaginar que este seria o último disco do Frank gravado em estúdio...

            Se a princípio me encantei com suas músicas, depois eu me surpreenderia com sua carreira no cinema. Recordo que o primeiro filme que gravei em vídeo cassete (alguém ainda tem um?) foi “Meus Dois Carinhos” (1957), com as lindas atrizes Rita Hayworth e Kim Novak, em que Frank interpretou a antológica “The Lady is a Tramp”. Aliás, por conta dessa gravação, meu vídeo cassete que mal estreou, não parava de trabalhar. Acho que meu pai assistiu a esse filme umas 5 vezes naquela semana por conta da Kim Novak, a sua musa cinematográfica, e passou a mostrar cenas dela a todos que iam lá em casa. Pelo menos, com isso, acabavam prestigiando o Frank também. Depois, eu viria a assistir a ótimos musicais em que ele cantava e dançava com Gene Kelly, “Marujos do Amor” (1945), “Um Dia em Nova York” (1949) e a “Bela Ditadora” (1949). Amei também o “Alta Sociedade” (1956) com Louis Armstrong, Bing Crosby e a futura princesa Grace Kelly. E o que dizer de “A Um Passo da Eternidade” (1953), em que Frank ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante sem cantar? Aliás, foi o que eu descobri: Frank Sinatra era também um excelente ator.

A classe, a elegância e o charme de Frank só poderiam ter feito dele, inclusive, um sucesso na TV. Chegou a apresentar “The Frank Sinatra Show” na década de 50 e na era da TV em cores fez uma série de especiais começando por “A Man and His Music” (Um Homem e Sua Música) em 1965, vencedor do prêmio Emmy, o maior da TV americana. Com o tempo, fui à caça desse material televisivo em DVD e confesso: comprei todos os que encontrei. O último comprei no mês passado. Afinal, a minha Sinatramania tem que continuar...

                        E foi nesse clima de festa por conta dos seus 100 anos, é que fiz questão de prestigiar com uma amiga o show do inglês Louis Hoover acompanhado da Hollywood Orchestra. Foi um espetáculo de esplendor! Pode soar exagerado, mas o show me arrebatou do início ao fim. Tendo como cenário o belíssimo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, a voz potente de Louis se destacava ao lado da afinada orquestra e juntas proporcionaram à plateia momentos, de fato, memoráveis. O cantor bonito, simpático e charmoso fez com que a música de Frank penetrasse e permanecesse em meus ouvidos e mente por longo tempo... Eu me emocionei (e me arrepiei também) ao ouvir “Night and Day”, “Strangers in the Night”, “All The Way”, “The Girl From Ipanema”, a “Aquarela do Brasil” cantada em inglês com arranjos sensacionais de jazz e muito mais! Nunca pensei que eu teria a oportunidade de assistir a um show composto somente do repertório do Frank Sinatra. Sei que não era o Frank, mas Louis personificou todo o seu estilo no palco, superelegante, cantando maravilhosamente bem e falando ao público com pitadas de humor. O show durou mais ou menos duas horas e me fez sair de lá extasiada... Parabéns, Louis, pela justa homenagem!

            Embalada por esta onda de celebrações, tudo o que eu queria era Frank, Frank, e mais Frank. Assim que pude, fui direto para o Museu de Arte Moderna (MAM), situado em meio a beleza paisagística do Aterro do Flamengo. Lá é acontecia a exposição “Frank Sinatra - A Voz do Cinema”, a que me referi no início do texto. Havia pôsteres originais de filmes marcantes da carreira de Frank, entre eles os dramas “A Um Passo da Eternidade” (1953), “O Homem do Braço de Ouro” (1955), “Onze Homens e Um Segredo” (1960), “O Expresso de Von Ryan” (1965), “Tony Rome” (1967), os musicais “Um Dia em Nova York” (1949), “Eles e Elas” (1955), “Chorei por você” (1957); aí a minha memória começa a pegar...  Havia mais cartazes, é claro, e para o deleite dos fãs, ingressos de shows, inclusive, o do Maracanã, partituras, fotos, um boneco igualzinho ao Frank, e até itens como uma garrafa de Jack Daniel's, lançada com o nome de Sinatra Select, por ser a sua marca de whisky predileta. Não poderia faltar ainda a exibição diária de filmes. Quem pôde ir, tenho certeza de que não se arrependeu. E para coroar o dia da minha visita, saí de lá com um lindo catálogo elaborado especialmente para celebrar os 100 anos do Frank. Voltei para casa com sorriso de orelha a orelha!

            A festividade do centenário do Frank Sinatra inclui vários lançamentos e homenagens ao redor do mundo. Com este texto, faço também o meu tributo particular, mas vou parar por aqui. Pois, se me deixarem à vontade, continuo a escrever sobre o Frank mais do que os meus caros leitores poderiam suportar... Só digo que é verdade mesmo que me arrepio ao ouvir músicas como “New York, New York”, “Let Me Try Again”, “My Way” ou “Fly Me To The Moon.” Aliás, ao ouvir esta canção, posso dizer que embarco em uma viagem musical ao som desses versos: “Fly Me To The Moon (Leve-me para a Lua)/Let Me Play Among The Stars (Deixe-me brincar entre as estrelas)”... e se não chego a sentir-me na lua propriamente dita, sinto-me como se estivesse descortinando as nuvens, elevada ao mundo maravilhoso do amor romântico. Parece delírio, não? Mas, para quem é fã, sabe que o delírio é parte integrante da tietagem e não pode ser sentido separadamente... Portanto, convido a todos a conhecer um pouco mais este artista fenomenal e torcer para que sua música continue a tocar enquanto um fonograma existir. E quanto a mim, pretendo arranjar mais 100 motivos para comemorar o inesquecível Frank Sinatra!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 17h03
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MADRE PAULINA – UMA SANTA EM TERRAS BRASILEIRAS

 

 santa 

 

          Saber que há santos reconhecidos pela Igreja que viveram em nosso país é, sem dúvida, um motivo de grande alegria para todos os católicos do Brasil. Uma alegria que se torna ainda maior quando temos o prazer de conhecer um pouco de suas histórias. E celebramos no dia 9 de julho a primeira santa que viveu sua missão com toda a plenitude em território nacional: Santa Paulina.

          A primeira vez que ouvi sua história foi por ocasião de sua beatificação em 1991 quando assisti a um documentário dramatizado na extinta TV Manchete e afirmo: foi amor à primeira vista.  A atriz Nina de Pádua interpretou Madre Paulina com muita segurança e, desde então, a trajetória desta mulher extraordinária ficou sempre em minha mente. Decidi, então, que ainda conheceria sua história com mais detalhes. Com esta convicção, há alguns anos, procurei o que havia de disponível no mercado sobre ela nas livrarias católicas e tive agradáveis surpresas. Encontrei duas biografias “Madre Paulina – caminho da luz” de Diogo Fuitem e Fidel Garcia Rodriguez, pequenina, mas muito bem-escrita e “Madre Paulina – Entre Carisma e Obediência” do autor italiano Guido Lorenzi, muito mais recheada. Posteriormente, li as duas e encantei-me ao conhecer ainda mais sobre a vida de uma mulher que viveu para amar e servir a Deus e ao próximo. E o melhor é saber que toda a sua obra de santidade foi, de fato, desenvolvida em terras brasileiras.

          Nascida na Itália em 1865, Amábile (que quer dizer amável) Lúcia Visintainer veio para o Brasil em 1875 com sua família e muitos outros italianos. Os imigrantes estabeleceram-se em Santa Catarina; logo fundaram pequenos povoados e rebatizaram a localidade de Alferes como Nova Trento. Nessa região floresceu a vocação religiosa da menina Amábile, que ajudava nos serviços domésticos e na lavoura. Ainda mocinha, com sua grande amiga, Virgínia Nicolodi, ela recebeu do padre local as honrosas tarefas de cuidar da Capela de São Jorge - que anos mais tarde se tornaria o Santuário de N. Srª de Lourdes - de tratar de enfermos e de ministrar a catequese para as crianças. Aos 25 anos, Amábile criou com Virgínia um hospital, ainda que minúsculo, mas dando início a sua fértil obra. Era 1890 e a jovem tinha sonhos reveladores com N. Srª de Lourdes, como aquele em que a Virgem, de uma escada de nuvens, lhe dizia: “Eis as filhas que te confio”, mostrando-lhe meninas vestidas de branco que, entre árvores com cachos de uvas já maduras, passavam correndo e brincando em plena felicidade. Ela entendeu seu chamado vocacional, pois viu que teria muitas moças sob sua responsabilidade para encaminhar a uma vida totalmente dedicada à fé e às boas obras. E isso foi motivo de alegria em seu coração.

          O ano de 1890 também marcou a data de fundação da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Este foi o primeiro Instituto Religioso criado no Brasil, ainda trazendo o pioneirismo de ter uma mulher como fundadora, a destemida Amábile. Em 1895, ela fez com Virgínia e outra amiga, Teresa Anna Mauler, os seus votos religiosos adotando o nome de Irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Para a sobrevivência da Congregação, as Irmãs cultivavam alimentos, linho, algodão, criavam bichos-da-seda, confeccionavam velas, flores, teciam e recebiam doações. Deste modo, conseguiram criar uma fábrica de seda, hospitais, escolas para meninas e ainda assistiam órfãos e pessoas idosas, vivendo sempre à base de muito trabalho e oração. Em 1903, a então Madre Paulina foi eleita como Superiora Geral da Congregação.

          No mesmo ano, ela foi transferida para Ipiranga/SP a fim de expandir sua obra. Lá passou a cuidar de ex-escravos e órfãos, além de fundar outras unidades, como a Casa Geral da Congregação. Sua fé, humildade e conduta eram exemplares, mas como a perseguição faz parte do histórico de todo bom cristão, a Madre sofreu calúnias de uma rica benfeitora da instituição, Ana Brottero. Então, o Arcebispo local Dom Duarte destituiu Madre Paulina do cargo de Superiora em 1909 e enviou-a para a Santa Casa de Misericórdia em Bragança Paulista, também fundada por ela. Nessa cidade, a religiosa passou a trabalhar com os doentes e também nas áreas da cozinha, limpeza e lavanderia. Contudo, ela foi logo chamada para fundar outra casa na cidade, o futuro Asilo de São Vicente de Paulo, onde serviria de 1910 a 1918, em meio a muita pobreza. Madre Paulina foi finalmente convidada a retornar à Casa Geral em São Paulo e, em 1933, recebeu com alegria um Decreto de Louvor do Papa Pio XI, vendo sua obra bastante ampliada ter o devido reconhecimento. A Madre ainda viveu, nos últimos anos de vida, já diabética, o martírio da amputação do braço direito e da cegueira, mas sempre manteve firme sua fé. Morreu em 09/07/1942, aos 76 anos, deixando um legado inestimável ao Brasil. Hoje em dia sua Congregação se faz presente em nada menos que 16 estados e em 10 diferentes países.

          Com o reconhecimento de dois milagres realizados através da intercessão da religiosa, o Papa João Paulo II (agora também santo) canonizou a querida Madre como Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus em 19/05/2002. Uma linda história que não tem prazo para ter fim. Em 2006, a TV Século 21 produziu o excelente filme/documentário “Madre Paulina” que foi agraciado com o prêmio Clara de Assis naquele mesmo ano e lançado posteriormente em DVD. A narrativa, inclusive, conta com emocionados depoimentos das pessoas que vivenciaram ou foram testemunhas dos milagres reconhecidos, além de entrevistas com irmãs e benfeitores que dão continuidade a sua obra.  Hoje podemos encontrar em Nova Trento/SC o grande Santuário Santa Paulina, erguido também em 2006, que recebe milhares de visitantes por ano. O próximo projeto será realizado na cidade de Imbituba em Santa Catarina com a construção de um monumento de 46,5m de altura! Sua história realmente emociona e, para mim, considero mais do que justas todas as homenagens prestadas à Santa Paulina, que sempre viveu como uma obediente, devotada, corajosa e incansável serva de Deus.

 

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 17h15
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                                                              JUNHO: É TEMPO DE ESCOLHER A FESTA



                                                                                       

                         

O mês de junho geralmente traz-me ótimas expectativas. E agora não há de ser diferente... De quatro em quatro anos, em anos pares como 2006, 2010, 2014, espero junho para ver o Brasil em clima de Copa de Mundo com os torcedores começando a viver todas as emoções que a competição proporciona. Mesmo sem acompanhar o futebol como eu fazia antigamente, confesso que me animo bastante e fico ligada em tudo. Compro revistas, camisas, adereços em verde-amarelo e assisto ao máximo de jogos que eu puder. E os junhos dos anos comuns? Ah, logo me trazem à mente a lembrança das festas juninas e da inevitável alegria que as acompanham, após a bela solenidade de Corpus Christi, além de haver o Dia dos Namorados. Independente do ano, junho é sempre mês de comemoração!

Começando com Corpus Christi, lembro-me que, com essa data, tenho mais uma vez a alegria de celebrar a festa da Eucaristia sem contar que é uma boa oportunidade para admirar os lindos tapetes com temas sacros feitos pelos fiéis. Muitos passam a noite nas ruas confeccionando os tapetes, na maioria das vezes, com serragem colorida para mais tarde ter a satisfação de assistir à missa, à adoração ao Santíssimo Sacramento e sair em procissão passando junto a suas obras. Nessa época, sempre revelam-se artistas anônimos que dão um toque de arte especial a um evento que por si só expressa beleza e profundidade. Assim, a solenidade deixa em todos a emoção gratificante da experiência que une fé,  atividade e contemplação.

Já que falei de alegria, passo agora para outro tipo de festividade: as tradicionais festas juninas. Fico a imaginar as crianças e jovens com trajes caipiras circulando pelas barraquinhas enfeitadas com bandeiras de diversas cores, algumas com jogos como pescaria, arremesso às latinhas ou bingo e outras lotadas de doces e salgados. Aí, segue-se um desfile de atrações para o prazer de qualquer paladar: cocada, canjica, quindim, manjar, pé de moleque, cuscuz de coco, doce de leite, bolo de chocolate, cachorro quente, torta de sardinha, pastel de carne ou de queijo, pizza calabresa, entre outros. Vou agora revelar o meu petisco predileto: o salsichão, simplesmente imperdível. Diante desse mundo de cores e sabores, perco-me nos dilemas anuais: “O que provar desta vez?”, “Vale a pena correr o risco de aumentar algum quilo?” E vêm-me à memória os versos de Cecília Meireles: “Mas não consegui entender ainda/ qual é melhor: se isto ou aquilo.” E assim, o dilema vem e não se vai...! Uma coisa é certa, provo as iguarias primeiro, tomo as medidas necessárias quanto à balança depois... Agora que peguei o costume, vou às festas todos os anos e não dispenso de assistir às danças de quadrilha, casamentos na roça e ouvir forró pé de serra.  Na minha igreja, essas noites são sempre animadas e disputam-se mesas e cadeiras devido ao grande número de participantes. E muitos nem se importam de ficar em pé. Sem dúvida, as festas juninas foram uma excelente contribuição que os colonizadores portugueses deram ao nosso país. Parece até que o costume de se celebrar Santo Antônio, São João e São Pedro em um animado arraial surgiu por aqui. Não é à toa que a festa de Campina Grande/PB, por exemplo, é chamada de “o maior São João do mundo”, dura o mês todo, atrai turistas de tudo quanto é parte e movimenta bastante a economia da região. Aliás, no Brasil, felizmente festa é que nem semente, o povo a planta, a terra se encanta e tudo dá...

Só lamento que, com a diminuição estatística do número de católicos em nosso território (64,6% pelo censo 2010 do IBGE), vemos que a força da festa junina já diminuiu em certas regiões. Há fiéis de várias religiões que não participam das festividades por serem dedicadas aos três santos católicos. Mas, como a cultura resiste, há sempre quem traga alguma ideia conciliadora. Conheci há uns anos uma Igreja Evangélica cujo pastor resolveu a questão usando, digamos, uma variante do “jeitinho brasileiro” e decidiu promover uma “Festa Jesuína”, com características semelhantes a da convencional... Ótima saída: assim, manteve-se a fé e a tradição.

Penso também que junho é um mês romântico. Para quem está bem-acompanhado é o mês de se celebrar romances, compartilhar histórias, escolher belos cenários e ouvir canções inesquecíveis para passar o Dia dos Namorados. E por falar em música, outro dia eu ouvi “I Remember Yesterday” da saudosa Donna Summer, também conhecida como a “Rainha da Disco Music” e fiquei impressionada com a letra. A protagonista tecia lembranças sobre a noite em que conheceu o seu par ideal: “I remember that first night we met (lembro-me daquela primeira noite em que nos conhecemos)/ dancing to the sound of clarinets (dançando ao som dos clarinetes)/ dancing cheek to cheek (dançando de rosto colado)/ oh, how sweet (oh, que doçura)/ you and me.. (você e eu...)” E ao longo da canção, a noite é marcada por champagne, jantar à luz de velas, música até o raiar do dia e os dois ficando sozinhos no salão...  E no final, o encontro se encerra com o gentleman deixando a moça na porta de casa entre juras de amor. Fiquei a imaginar no tempo em que era possível um casal se conhecer ao som de clarinetes em noite regada à champagne e tudo mais num clima tão romântico... E pensar que a música com esse enredo estourou nas paradas do mundo inteiro em 1977, ou seja, já nos agitados anos 70! Confesso que fiquei dias em estado de nostalgia... Aquela época definitivamente era outra e agora me pergunto: “Como, em 2015, um filme que enfoca um romance com práticas sado-masoquistas como “Cinquenta Tons de Cinza” pode ter tido lançamento oficial no fim de semana do Valentine’s Day?” Pois, nesta data comemora-se o Dia dos Namorados nos Estados Unidos e em muitos outros países. Como no Brasil o grande dia é o 12 de junho, acredito que aqui o ensejo ganhe outros tons... Até porque, independente do lugar do mundo, sempre haverá quem celebre o Amor com todo sentimento e no mais alto estilo.

Junho, portanto, é um mês temperado com diversos ingredientes: solenidade, festa, romance e alegria. Fico agora a pensar na rica oportunidade que cada ano nos proporciona para podermos renovar todas as nossas experiências e emoções. Sendo assim, convido os leitores a viver junho com muita intensidade. Não importando o momento que se celebre, o mais significante é poder desfrutar a escolha do cardápio, a beleza do calendário, o sentido de cada evento e procurar sempre estar acompanhado de uma dose indispensável e irresistível de inspiração...

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 20h42
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450 ANOS DE RIO DE JANEIRO E DE MUITAS HISTÓRIAS


 RIO-450

 


O meu lado carioca tem aflorado das mais variadas formas desde que tomei conhecimento de que a minha cidade estaria prestes a completar a expressiva idade de 450 anos. Cidade jovem se a compararmos com as do Velho Mundo, no entanto, tem um sem-número de histórias para contar, seja nos campos da política, da arquitetura, do turismo, das artes, dos costumes e de outros mais. Ser carioca, muitos afirmam, não é só uma questão de certidão de nascimento, mas de se identificar com o espírito da cidade, como é o caso da grande Carmem Miranda, que nasceu em terras portuguesas, porém era mais do que brasileira e carioca de coração. Assim, neste clima, posso dizer que tenho explorado muito o mapa do meu Rio, através de passeios, lembranças e experiências. Agora não resisto ao desejo de compartilhar com vocês um pouco também das minhas histórias.

Uma das maneiras que encontrei para entrar em contato com a memória da cidade foi a de folhear a minha coleção de livros de fotografia do Rio antigo e apreciar as imagens da transformação da paisagem e do povo carioca. Os primeiros livros que peguei foram os do editor George Ermakoff: “Rio de Janeiro 1840-1900. Uma crônica fotográfica”, “Augusto Malta e o Rio de Janeiro 1903-1936” e “Rio de Janeiro 1930-1960. Uma crônica fotográfica.” Sentei para contemplar foto por foto e me transportar para uma era em que o Rio, já com muito charme, posava de capital do Império e anos mais tarde da República. Os livros me trouxeram imagens magníficas de um Rio com ares de nobreza e ao mesmo tempo bucólico, cheio de áreas verdes, como na época imperial, ou com tons parisienses da Belle Époque no início da República e, por fim, de um Rio mais moderno, do Estado Novo e da onda elegante da Bossa Nova. Era o Rio de um tempo que eu não vivi, de mais áreas livres, de praias limpas e de uma população mais tranquila andando pelas ruas.  Através da arte da fotografia, pude por muitos momentos sentir a atmosfera da cidade tal qual ela foi um dia, ou melhor, em muitos, muitos dias. Consultei outras publicações, incluindo um catálogo fantástico do cartunista J. Carlos (1884-1950), de quem sempre fui fã. Ele, com seus desenhos, retratou como ninguém os costumes cariocas. Homenageou as melindrosas, os foliões, satirizou os políticos e apresentou um Rio que começava a usar o telefone, ouvir rádio, frequentar a praia, ficar fanático por futebol e muito mais. Que emoção! Fui assim passeando pelo meu acervo até passar para um de livro de fotos da era moderna. E cheguei à conclusão de que o Rio não para de se transformar e se revelar aos seus cidadãos.

Nunca me esqueço de uma turnê que fiz no Centro há alguns anos com a minha mãe durante um período de férias, sobretudo, para admirar as construções históricas. É bom frisar que, quando se fala em passeio, minha mãe costuma dizer que “gosta de sair de casa para ver coisa bonita”.  Neste clima, tiramos um dia para passear em todos os lugares que poderiam encantar os nossos olhos. Lugares já percorridos ou não. E assim visitamos o Mosteiro de São Bento, a Igreja da Candelária, Confeitaria Colombo, o Liceu Literário Português e fizemos uma visita guiada à Biblioteca Nacional, onde depois paramos do lado de fora e ficamos a admirar a paisagem encantadora da Cinelândia. Demos, por último, um pulo na modernidade e fizemos compras nas Lojas Americanas da Rua do Passeio. Mas, diria que um ponto alto do dia foi o almoço na Confeitaria Colombo. Se o centenário estabelecimento dá gosto só de olhar, o que dizer então de entrar, sentar e almoçar naquele buffet ao som de clássicos tocados ao piano? Não me lembro de ter visto minha mãe tão alegre com um almoço fora antes. Resultado do passeio? Alguns dias depois, ela já estava perguntando: “Quando vamos fazer a 2ª parte?” Afinal, não tinha dado tempo ver tudo que queríamos. Logo, voltamos ao Centro, visitamos o Real Gabinete Português de Leitura, fomos ao Convento de Santo Antônio e participamos de novas visitas guiadas, uma no Clube Naval e outra no Teatro Municipal. Entramos ainda no Centro Cultural da Justiça Federal, antigo Supremo, e apreciamos toda a sua arquitetura europeia. E o almoço? Lógico que repetimos a Confeitaria Colombo, com todo aquele ar de Paris no Centro do Rio de Janeiro. Um passeio de 1ª linha! Na verdade, não me recordo se o roteiro da turnê em dose dupla seguiu exatamente esta ordem, mas os locais, decerto, foram estes mesmos para nosso contentamento.

Nos últimos anos, vi e revi a maioria desses lugares e muitos outros. Seria impossível descrever todos. Contudo, sempre que tenho oportunidade saio para conhecer um cenário diferente, não importando o bairro. Gosto de sair e ficar em contato com o povo nas ruas. Pego quase diariamente o trem e o metrô e sinto a efervescência da cidade tanto no dia a dia quanto nos fins de semana. Ainda mais quando o Rio se envolve em eventos de grande porte como foram a Jornada Mundial da Juventude* e a Copa do Mundo. Já estou pensando nas Olimpíadas, pois é uma delícia ver os habitantes do Rio e turistas de tantos países diferentes festejando juntos nessas épocas. Ainda, falta-me entrar no Novo Maracanã... Seja nos dias de festas ou não, se há uma atividade de que gosto é andar a pé; sair pelas ruas como um flâneur a admirar novos pontos ou descobrir novos sabores...

Fico, muitas vezes, a imaginar o meu Rio de Janeiro ideal, ainda de mais beleza, com ruas e águas mais limpas, com casas e prédios bem-conservados, sem pichações, e com o povo vivendo livre da violência e do fosso social. Embora esse seja o Rio dos meus sonhos, que inclui a reinserção do Palácio Monroe à paisagem local, não deixo de apreciar o Rio como ele é e curtir o fato de ter nascido aqui, na época ainda no Estado da Guanabara, mas sempre carioca.

Por falar nisso, houve diversos momentos em que já me senti uma autêntica carioca. E há muitos outros em que continuo a sentir-me... Pode ser tomando um chopp com o namorado no Bar Luiz no Centro ou com as amigas em um quiosque à beira da praia, curtindo os fogos do Reveillón ou passeando no calçadão de Copacabana. Pode ser andando pelo Aterro do Flamengo, admirando o Pão de Açúcar na Enseada de Botafogo, fotografando o Cristo Redentor visto do Parque do Martelo, Humaitá ou contemplando o pôr-do-sol noArpoador. Pode ser pegando uma praia em Ipanema, dançando num bloco de Carnaval qualquer na Zona Sul, pegando um táxi para a Barra da Tijuca ou comparecendo a um evento como a Feira da Providência no Rio-Centro. Pode ser até comendo churros na calçada, fazendo compras no Norte-Shopping, Cachambi, no Shopping Center Nova América ou lanchando na sua extraordinária Rua do Rio, com bares e restaurantes moderninhos num ambiente de Rio Antigo em pleno Del Castilho. Pode ser passando pelo Jardim do Méier com seu característico coreto, frequentando perto dali a minha amada Basílica do Imaculado Coração de Maria, torcendo (claro!) pelo Flamengo, ou ouvindo um grupo de choro, bossa nova ou os sambistas da Portela, seja onde for...

Já que andei e rodei pelo Rio de Janeiro no tempo e no espaço através desta crônica e voltei para perto de casa, assim como às minhas preferências mais do que pessoais, vou parar por aqui. Afinal de contas, há pelo menos umas 450 possibilidades para sentir-me carioca. Cada vez mais... Feliz Aniversário, Rio de Janeiro!

 

*Obs: Escrevi duas crônicas publicadas neste blog sobre a Jornada Mundial da Juventude. Para conferir, aqui vão os endereços:

“Jornada Mundial da Juventude: Entrando no Clima” : http://debora.fontenelle.zip.net/arch2013-08-11_2013-08-17.html

“Jornada Mundial da Juventude: Compartilhando a Alegria”: http://debora.fontenelle.zip.net/arch2013-08-18_2013-08-24.html

 

 



Escrito por Debbie Fontaine às 12h31
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